
A Polícia Federal (PF) revelou a existência de uma sofisticada e extensa "fábrica de agentes secretos russos" no Brasil. Este aparato funcionou como uma base neutra para orquestrar operações na América Latina por, no mínimo, doze anos. Dez indivíduos foram identificados inicialmente em 2022, com pelo menos um deles seguindo sob investigação em 2025 pelo uso de identificações adulteradas. Os espiões utilizavam personagens e históricos de vida inventados para se infiltrar em outras nações e repassar dados estratégicos à Rússia.
Entre os suspeitos, destacam-se aqueles que adotaram fachadas inusitadas: um fingia ser proprietário de uma joalheria em Brasília, outro se apresentava como estudante e entusiasta de forró em São Paulo, e uma mulher assumiu o papel de modelo. Segundo a PF, os investigados construíram narrativas convincentes para fortalecer a aceitação internacional como se fossem cidadãos brasileiros. Nove deles já deixaram o país, mas Sergey Vladimirovich Cherkasov permanece detido.
Cherkasov, preso inicialmente em Amsterdã após tentar usar um passaporte brasileiro forjado no Tribunal Penal Internacional, foi repatriado ao Brasil em 2022. Ele responde pelos delitos de utilização de documentos falsos, lavagem de capitais e atividade de espionagem. Durante o inquérito, foram localizados registros, áudios e mensagens indicando que ele recebia R$ 35 mil de servidores do governo russo para se manter sem exercer atividade remunerada. Ele passou nove meses em uma cela da PF na capital paulista antes de ser transferido para a Penitenciária Federal em Brasília.
A partir da captura de Cherkasov, a PF ampliou o escopo da apuração e descobriu que outros agentes secretos recebiam apoio do consulado russo no Rio de Janeiro e da embaixada na capital federal. O esquema também teria empregado outros países da América Latina, como Argentina e Venezuela, como centros de operações, com espiões penetrando em nações europeias com falsas identidades. Um par russo, por exemplo, conseguiu ingressar na Eslovênia usando papéis falsificados, sendo recebido na Rússia com honrarias após seu retorno.
Após três anos encarcerado, Cherkasov se tornou objeto de disputa entre duas nações: a Rússia pleiteia sua extradição, alegando que ele seria um foragido procurado por tráfico de drogas, enquanto os Estados Unidos solicitam sua transferência sob a acusação de espionagem. O Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) monitora a situação, mas não divulga detalhes em razão da natureza sigilosa do processo. A Polícia Federal continua atuando para mapear a totalidade da rede e suas ramificações globais.