“Bolsonaro não tem condições de ir para uma prisão comum”, diz José Dirceu sobre condenação do ex-presidente

Ex-ministro afirma que fala com Lula “por telepatia” e que presidente pediu que ele se candidate a deputado federal em 2026

06/10/2025 às 13h01
Por: Marcela Mattiolli Colaboração para Felipeh Campos Fonte: BBC News Brasil
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José Dirceu - Reprodução: Félix Lima/BBC / BBC News Brasil
José Dirceu - Reprodução: Félix Lima/BBC / BBC News Brasil

Prestes a completar 80 anos, o ex-titular da Casa Civil e líder do Partido dos Trabalhadores (PT), José Dirceu, revela que está se exercitando, diminuindo o consumo de vinho e se preparando para um novo pleito eleitoral.

Planos Eleitorais e Pessoais

No próximo ciclo, ele planeja lançar um livro — a segunda parte de sua trilogia de memórias — e concorrer, pela quarta vez, ao cargo de deputado federal por São Paulo.

O próximo embate, conforme menciona, foi um pedido explícito do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva. Nele, buscará votos como uma forma de retidão e "compensação", após cumprir penas de prisão que considera indevidas, relativas ao caso conhecido como mensalão e à Operação Lava Jato. Dirceu retornou este ano a ocupar uma posição na diretoria nacional da legenda.

Pragmatismo e Relações

Demonstrando praticidade, Dirceu compartilha que sua filha mais nova segue a fé evangélica. Ele também recorre a um certo aspecto místico ao afirmar que se comunica mentalmente com Lula, mas que raramente o encontra face a face.

"Temos um vínculo de quase 40 anos, e convivemos de 1979 até 2005 quase que toda semana ou diariamente. Então nós também nos falamos, vamos dizer assim, por telepatia."

Análise Política dos Oponentes

Reconhecido como a mente estratégica que conduziu o PT ao poder por meio de uma política de acordos e estrutura interna, ele admite a capacidade de seus antagonistas. Assegura que Valdemar Costa Neto, fundador e presidente do PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, "é o político mais competente que existe na direita", e "um dos líderes mais qualificados".

O relacionamento entre os dois é antigo. Valdemar foi um dos articuladores da coligação do PT com o PL em 2002, ano em que Lula foi eleito pela primeira vez, tendo José Alencar como seu vice.

Posteriormente, Dirceu e Valdemar foram companheiros de cárcere, detidos no âmbito do mensalão, a denominação popular para o "pagamento mensal" que parlamentares recebiam do PT para aprovar projetos do governo em 2005, segundo a sentença do Supremo Tribunal Federal. Dirceu nega, até o presente momento, a existência daquele que seria o primeiro grande escândalo de desvio da gestão petista, embora mencione, sem especificar, "falhas".

"O Valdemar às vezes ficava irritado comigo, porque eu queria providenciar uma luminária, porque eu queria ler, e ele dizia 'Zé Dirceu, nós temos que sair daqui, para com isso, você parece que está querendo permanecer'. E eu respondia, não Valdemar, eu quero ler", relatou o antigo ministro.

"Felizmente ele não ficou, mas eu fiquei. Eu estava correto, porque eu fiquei, então eu tive que batalhar por melhores condições na prisão."

Opinião sobre Bolsonaro e Palocci

Para ele, Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado pelo Supremo e em reclusão domiciliar, não teria perfil para permanecer preso, por ser "muito volátil" e carente de "autocontrole". Em sua opinião, é apropriado que Bolsonaro permaneça em sua residência, nas mesmas circunstâncias atuais do também ex-presidente condenado Fernando Collor de Mello.

O ex-guerrilheiro, que foi detido em cinco ocasiões — uma durante a ditadura, outra no mensalão e três vezes na Operação Lava Jato —, demonstrou-se tocado, de forma reservada, ao abordar o assunto do antigo ministro da Fazenda e ex-membro do PT, Antônio Palocci.

"Éramos muito próximos em termos de afeto", comentou. "Quase como irmãos". No entanto, deixaram de se falar depois que Palocci iniciou suas negociações com a Polícia Federal, sem o conhecimento do Ministério Público Federal, para acordo de colaboração na Operação Lava Jato em 2018.

"Eu jamais faria [delação premiada]. Eu preferia a morte a fazer isso", declara Dirceu. "Ele fez, assumiu as consequências e eu não vou censurar, não vou fazer isso, porque considero até um ato de covardia."

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