
Há uma época do ano em que o cinema parece respirar um pouco mais profundamente. Veneza, Telluride e Toronto abrem suas portas, os filmes começam a circular, os críticos escrevem suas primeiras impressões e, aos poucos, aquilo que poderá dominar a temporada de premiações começa a ganhar forma.
Mas os grandes festivais não servem apenas para apontar possíveis indicados ao Oscar. E talvez essa seja justamente a parte mais interessante.
Há espaço para enredos políticos, conflitos familiares, diferenças sociais, personagens em crise e pessoas tentando simplesmente sobreviver em um mundo que parece cada vez mais improvável. Ou seja, histórias facilmente reconhecidas em cada um de nós.
Em "Furies" (Veneza, Toronto), por exemplo, duas irmãs tentam incansavelmente recuperar o dinheiro que perderam depois que um banco congela suas contas.
Já em "Possible love" (Veneza, Toronto), do sul-coreano Lee Chang-dong, o olhar para a desigualdade é visto por outro ângulo. Dois casais, separados por diferenças econômicas, tornam-se peças de uma delicada observação sobre dinheiro, desejo e carência.
Há também narrativas que olham diretamente para os traumas do nosso tempo. "My undesirable friends: part II – exile" (Veneza, Telluride) acompanha jornalistas obrigados a deixar a Rússia e mostra que defender a profissão, em determinados lugares, pode colocar a vida em risco.
"Naza" (Veneza) segue uma jornada ainda mais dolorosa ao abordar a guerra em Gaza. Independentemente das posições políticas de cada espectador, filmes como esse lembram que o cinema documental pode ter uma função que ultrapassa o entretenimento.
Já "Tender loving care" (Telluride, Toronto), de Mike Leigh, parece encontrar sua força justamente nas pequenas coisas: as dificuldades do cotidiano e a necessidade de cuidar uns dos outros. É o tipo de obra que não precisa gritar para ser ouvido.
Talvez o mesmo possa ser dito de "Misty green" (Toronto), dirigido pelo comediante Chris Rock. Por trás de uma atriz tentando reconstruir a carreira, existe uma reflexão sobre fracasso, autossabotagem e a crueldade de uma indústria que pode transformar pessoas em produtos.
Entre tantos temas densos, há ainda espaço para a aventura, o humor e até para o absurdo.
"Wild horse nine" (Veneza, Telluride, Toronto), ou "Cavalo selvagem nove", de Martin McDonagh, reúne John Malkovich e Sam Rockwell em uma história que mistura amizade e espionagem, tornando-se uma das produções mais aguardadas do ano, principalmente depois que Malkovich venceu o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza.
"The debut" (Telluride, Toronto), ou "A grande estreia", de Jesse Eisenberg, aposta, com humor, nas mudanças, sem medidas, que fazemos para sermos aceitos.
De fato, não existe uma única maneira de fazer cinema relevante.
Pode ser através de uma produção gigantesca, como "Dau" (Veneza), que recria a atmosfera da União Soviética. Da nostalgia de "Queer Edward II" (Veneza), revisitando Derek Jarman e uma comunidade artística que marcou uma época, ou através de uma estrela como Mahershala Ali encontrando, em "Your mother, your mother, your mother", um personagem que permite discutir masculinidade, paternidade e vulnerabilidade.
Festivais existem não apenas para chamar a atenção do mercado, dos distribuidores ou até promover filmes independentes para que sejam lembrados durante as temporadas de premiação, mas para mostrar que o cinema depende, acima de tudo, do público.
Vale lembrar que, em Veneza, o dinamarquês "Woman unknown" e, em Toronto, o espanhol "La bola negra" saíram vencedores do principal reconhecimento, que é o de melhor filme exibido durante toda a mostra, gerando repercussão e expectativa.
O Oscar pode escolher seus favoritos. Os críticos podem montar suas listas. O público pode concordar ou discordar, mas o verdadeiro filme começa, muitas vezes, quando os créditos finais aparecem.
É nesse momento que descobrimos se o que acabamos de assistir era apenas uma história ou um panorama sobre nós mesmos.
Agora, o que nos cabe é aguardar a estreia de cada um deles e premiá-los, ou não, com nossa opinião.