
Tom Cruise já salvou o mundo tantas vezes no cinema que vê-lo, agora, tentando entender como o mundo chegou ao limite é quase uma ironia. Em "Digger", já em cartaz no Brasil, Alejandro G. Iñárritu coloca o astro em um terreno bem diferente daquele em que costuma desfilar: um magnata do petróleo tentando encontrar uma saída para a destruição que ele próprio ajudou a provocar.
A ideia é boa. E o filme, de fato, tem bons momentos.
Iñárritu aposta em uma sátira sobre crise ambiental, poder, política e, principalmente, sobre a velha mania do ser humano de só perceber o próprio erro quando já é tarde demais. O diretor não economiza no exagero e transforma o absurdo em uma espécie de combustível para a crítica.
O problema é que "Digger" parece querer abraçar o mundo inteiro de uma vez. É comédia, fábula, espetáculo e reflexão. Em certas passagens, essa mistura funciona muito bem. Em outras, o longa parece mais preocupado em mostrar tudo o que quer dizer do que em deixar a história simplesmente acontecer.
E aí entram os diálogos.
Há conversas e monólogos longos demais, que acabam cobrando seu preço no ritmo. Curiosamente, não é um filme excessivamente longo, daqueles que fazem o espectador começar a olhar para o relógio. O desgaste vem de outro fator: algumas situações poderiam terminar antes, mas insistem em permanecer em cena.
O elenco, por outro lado, segura bem essa proposta.
Tom Cruise tem o benefício da maquiagem, mas faz de Digger Rockwell um grande teatro. Aos 64 anos, o ator acostumado a missões impossíveis abraça uma figura bem distante da imagem que construiu ao longo da carreira. Riz Ahmed, Sandra Hüller, John Goodman e Jesse Plemons também entram no jogo e defendem seus papéis, que, em determinados trechos, parecem tão exagerados quanto o universo da produção.
E já que estamos falando de Cruise, vale fazer um parêntese.
Indicado três vezes ao Oscar por atuação e uma por produção, talvez já tenha passado da hora de a Academia premiá-lo. Só que, mais uma vez, talvez não seja a hora.
Não por falta de mérito. O problema é que 2026 está cheio de grandes atuações. Entre elas, a de John Malkovich, vencedor do prêmio de Melhor Ator no Festival de Veneza e que aparece como um dos nomes capazes de tirar de Cruise a tão esperada estatueta dourada.
O mesmo vale para o longa.
Depois de dividir a crítica especializada, "Digger" pode encontrar dificuldades para aparecer em muitas das principais categorias da cerimônia. Não significa, porém, que seja completamente ignorado. Há aspectos técnicos que podem jogar a seu favor. Design de produção e cinematografia, por exemplo, parecem caminhos bem mais plausíveis para uma eventual lembrança.
No fim das contas, "Digger" está longe de ser uma experiência perfeita. Sua ambição é maior do que sua capacidade de organizar todas as ideias que coloca na mesa. Há momentos em que o deboche é inteligente, provoca risos e funciona como crítica. Em outros, a repetição acaba enfraquecendo justamente aquilo que a obra queria destacar.
Ainda assim, existe algo estimulante nessa tentativa de Iñárritu de fazer um cinema grande, estranho, irônico e desconfortável.
Não será lembrado como o maior evento cinematográfico do ano. Mas também não parece ter sido feito para passar despercebido.
NOTA: 6,5