Voz, reverência e presença: celebre a vida de Maria Bethânia

Nesta quarta-feira (18), a cantora completa 79 anos

18/06/2025 às 18h06
Por: Marcela Mattiolli Colaboração para Felipeh Campos
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Maria Bethânia - Reprodução: Jornal de Brasília
Maria Bethânia - Reprodução: Jornal de Brasília

Maria Bethânia não canta apenas — ela encarna. Desde que subiu ao palco em 1965 para substituir Nara Leão no espetáculo Opinião, no Rio de Janeiro, trouxe para a cena musical brasileira uma presença rara: teatral, telúrica e profundamente intuitiva. Aquela jovem baiana de fala mansa e olhar firme se tornaria, anos depois, uma das maiores intérpretes da língua portuguesa.

Filha do sertão e irmã de Caetano Veloso, Bethânia carregava em si a mistura exata entre tradição e invenção. Sua voz grave, quase litúrgica, encontrou eco em compositores de várias gerações. Chico Buarque, Gilberto Gil, Djavan, Roberto Carlos, Adriana Calcanhotto, Roque Ferreira — todos entregaram canções a ela como se oferecessem poemas à deusa certa.

Seu primeiro LP, Maria Bethânia (1965), trazia sucessos como "Carcará", que virou símbolo de sua potência política e presença cênica. Mas foi nos anos 1970 que sua assinatura artística se consolidou. Em álbuns como Drama (1972), Álibi (1978) — o primeiro disco feminino a vender mais de um milhão de cópias no Brasil — e Ciclo (1983), Bethânia mesclava música popular, poesia recitada e elementos cênicos, criando experiências sensoriais muito além da canção.

Ao longo da carreira, ela se reinventou sem nunca perder suas raízes. Incorporou o sagrado das religiões afro-brasileiras, o lirismo nordestino, a sofisticação da MPB e a força ancestral das palavras ditas. Sua relação com a poesia sempre foi visceral: nos palcos e nos discos, recitou Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Jorge de Lima e tantos outros com a reverência de quem escuta o mundo com o corpo inteiro.

Bethânia também foi pioneira no formato de shows-conceito. Maricotinha Ao Vivo (2001), Tempo Tempo Tempo Tempo (2003) e Amor Festa Devoção (2010) são exemplos de espetáculos que costuram música, texto e dramaturgia com rara sensibilidade. Em 2015, celebrou 50 anos de carreira com dois discos lançados simultaneamente: Meus Quintais, voltado ao universo simbólico do sertão, e Encanteria, mais urbano e espiritualizado.

Resguardada da mídia, avessa a entrevistas longas e ao imediatismo das redes, a cantora construiu um lugar de reverência, não de celebridade. É a artista que lota teatros sem aparecer, que emociona multidões com um sussurro, que transforma a canção popular em rito de passagem.

Hoje, com mais de 60 discos, dezenas de prêmios — incluindo Grammys Latinos — e uma legião de seguidores apaixonados, Maria Bethânia permanece como uma das vozes mais profundas e atemporais da música brasileira. Uma sacerdotisa da emoção, onde cada verso é reza, cada silêncio é aplauso.

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