Jornalista Izabella Camargo quebra silêncio após ser demitida da Globo por diagnóstico de burnout

Após sair da televisão, a jornalista se tornou empreendedora e utiliza a comunicação para conscientizar sobre os cuidados com o psicológico

08/12/2025 às 12h16
Por: Marcela Mattiolli Colaboração para Felipeh Campos Fonte: Terra
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Izabella Camargo - Reprodução: Instagram
Izabella Camargo - Reprodução: Instagram

Para Izabella Camargo, o colapso por burnout não representa um ponto final, mas sim uma ponte para as transformações vitais. Sua própria trajetória ilustra essa tese. Em 2018, a comunicadora foi diagnosticada com a patologia após um lapso de memória ao vivo — um apagão que a impediu de recordar a capital do Paraná, seu estado de origem, enquanto apresentava a meteorologia. O episódio resultou em sua demissão, seguida de uma reintegração via decisão judicial e, por fim, um distrato consensual com a emissora.

Longe da TV, a jornalista contou ao Terra que acreditava que sua experiência consolidada abriria portas imediatas em outros canais. Contudo, o destino exigiu uma mudança de rota.

"Depois que fui demitida, tinha muita certeza de que seria chamada por outra emissora. Não fui. Recebi um convite para popularizar a ciência no Ministério da Ciência e Tecnologia, aceitei e, depois de algumas semanas, já entendi que não tinha condições de assumir aquele desafio. Minha vontade de provar que já tinha me recuperado era tamanha que aceitei um desafio naquele momento para o qual não estava preparada. A recuperação do diagnóstico da síndrome de burnout leva anos, não meses. Quem disser que se trata de um burnout nas férias não sabe o que está falando".

Após declinar do cargo público para priorizar a saúde, Camargo mergulhou em estudos sobre bem-estar emocional. Com a ascensão do tema durante a crise sanitária global, ela encontrou um novo propósito: democratizar o conhecimento sobre saúde mental. Hoje, atua como consultora e palestrante corporativa, admitindo que o empreendedorismo foi uma imposição das circunstâncias.

"Faz parte do empreender a fórceps viver em lugares que antes eu não me imaginava, mas que agora são possíveis. O oposto também acontece. Ou seja, comecei a minha carreira na televisão. Hoje, atinjo milhares de pessoas pelas redes sociais, mas também existe uma grande parcela que não consome rede internet, que só acessa informações pela televisão. Então, quero expandir a comunicação. Se vai ser em uma emissora, na TV Globo, na Band, no SBT ou no Terra, não sei. O fato é que saúde mental precisa ser pauta como economia", revelou ao veículo.

Sem mágoas da antiga casa, ela celebra a evolução da Globo ao tratar do tema hoje. Izabella se vê retornando à empresa em novos formatos, focada na conscientização.

"Quando a gente está trabalhando a educação de saúde mental, não há competição e não há concorrência. Estamos falando de um tema que precisa da soma de conhecimentos e experiências. Preciso de muitos repertórios para alterar a cultura de um país. Então, fico muito feliz quando vejo a emissora que me demitiu tratando do assunto. Fico feliz de verdade."

Conceito Inovador: Os EPIs Emocionais

Inspirada pela segurança do trabalho clássica (capacetes e luvas), Camargo introduziu o conceito de EPIs de Saúde Mental. Ela argumenta que, se nos anos 70 o Brasil focou em riscos físicos, hoje a urgência é psíquica.

"Quando falo em EPI de saúde mental, preciso explicar primeiro o que é saúde mental, que é a capacidade de lidar com os imprevistos. Não importa o trabalho que você tenha ou onde você está, você é responsável pela sua saúde mental"

A comunicadora defende que a proteção é uma via de mão dupla. Às empresas, cabe garantir desconexão e liderança humanizada; ao empregado, a autogestão emocional.

"Falamos de corresponsabilidade, assim como nós já temos para os riscos físicos. Se você trabalha em um lugar que tem risco de queda, vou te dar os EPIs para evitar isso, mas você precisa usá-los para não se prejudicar. Com os EPIs de saúde mental é a mesma coisa."

A jornalista enfatiza que respeitar os próprios freios é um ato revolucionário em uma cultura que idolatra o labor incessante.

"Não adianta nada alcançar os seus objetivos e se perder pelo caminho. Que foi o que aconteceu comigo. Alcancei o principal o lugar da comunicação, mas não sabia me comunicar comigo. Além de todo o contexto de trabalho em que vivia, não tinha saúde para colocar limites definitivos. Estava esperando um milagre. O milagre veio na forma de freio. síndrome de burnout é um freio; não é o fim. Todo problema de saúde vem com um convite de cura embutido para te tirar de um ritmo insustentável em um contexto que não está mais funcionando para te colocar num lugar melhor".

Apesar da rotina intensa entre carreira e maternidade, ela afirma estar vigilante para não sucumbir ao vício no trabalho, algo que a sociedade, diferentemente de outros vícios, tende a premiar.

"Estou em vigilância constante. Na minha opinião, o burnout não tem cura, assim como a diabetes também não, nem a pressão alta. Quem gosta muito do que faz é viciado em trabalho. Todos os outros vícios não são bem-vindos na sociedade. Álcool, cigarro, drogas: mas o trabalho, sim. Então, fico muito vigilante para não querer abraçar o mundo de novo".

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