
Embora o primeiro turno das eleições ocorra apenas em outubro, o xadrez político já opera em ritmo frenético. No Palácio do Planalto, projeta-se uma saída em massa de ministros nas próximas semanas, um movimento que, longe de sugerir fragilidade, indica uma manobra de expansão. A meta da esquerda é pulverizar influência em diversas esferas, consolidando a governabilidade e fortalecendo a presença no Legislativo Federal, atualmente 'dominado' pela oposição.
Das 38 pastas atuais, pelo menos 17 devem sofrer alterações de comando até abril. Este é o prazo fatal estipulado pela Justiça Eleitoral para que ocupantes de cargos públicos renunciem caso queiram concorrer, evitando assim o uso indevido da máquina estatal.
Lula enxerga na renovação de dois terços da Câmara Alta uma chance de ouro para reverter a hegemonia de siglas como o PL (15 cadeiras), PSD (14) e MDB (11), enquanto o PT detém apenas 9. Seis nomes já miram o Senado:
Marina Silva (REDE/SP) – Meio Ambiente
Alexandre Silveira (PSD/MG) – Minas e Energia
Gleisi Hoffmann (PT/PR) – Relações Institucionais
Waldez Góes (PDT/AP) – Integração Nacional
Sílvio Costa Filho (Republicanos/PE) – Portos e Aeroportos
Rui Costa (PT/BA) – Casa Civil
Outra frente de seis ministros — incluindo Anielle Franco (Igualdade Racial) e Sônia Guajajara (Povos Indígenas) — buscará assentos na Câmara. Além disso, a sucessão estadual atrai Márcio França (Empreendedorismo) em SP e Renan Filho (Transportes) em AL, aproveitando que 18 governadores atuais não podem mais se reeleger.
Algumas figuras centrais do governo vivem momentos de indefinição ou transição técnica:
Simone Tebet (MDB/MS): Sairá até março, mas seu destino exato — embora o Senado seja o favorito — permanece em aberto.
Fernando Haddad (PT/SP): O titular da Fazenda deve deixar o cargo em fevereiro. Apesar de negar pretensões eleitorais, seu nome é ventilado para o governo paulista ou para o Senado.
Camilo Santana (PT/CE): Deixará o MEC após um balanço de gestão para atuar como cabo eleitoral na reeleição de Elmano de Freitas no Ceará, sem se candidatar.
Jorge Messias (AGU): Indicado para o STF na vaga de Ricardo Lewandowski (cuja aposentadoria de Barroso abriu espaço), aguarda aprovação para trocar o Executivo pelo Judiciário.
Dezesseis ministros decidiram permanecer até o encerramento do ano. Alexandre Padilha (Saúde) ratificou sua permanência, enquanto Luiz Marinho (Trabalho) recuou de sua candidatura a pedido direto do presidente. Geraldo Alckmin, o vice-presidente, mantém-se no posto, embora seja visto como o nome ideal para confrontar Tarcísio de Freitas em São Paulo.
Segundo o cientista político Leandro Consentino (Insper), o incentivo ao desembarque ministerial reflete a necessidade de nomes com peso eleitoral nas chapas regionais.
“O governo não depende mais tanto só da popularidade do presidente, que já não é tão grande quanto foi no seu segundo mandato. Mas depende também dessas alianças regionais, com nomes fortes para compor as chapas. E, aí, o nome dos ministros aparece como a primeira possibilidade”, explica o especialista.
Embora a saída simultânea de tantos quadros possa afetar a fluidez política, Consentino pondera que a maioria das lacunas será preenchida por secretários executivos “que vão dar continuidade, em geral, às próprias políticas públicas que já estavam sendo realizadas pelo governo nos últimos anos”, garantindo que a engrenagem administrativa não pare durante o período eleitoral.