
Detido na Penitenciária Federal de Campo Grande (MS), Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, dedica boa parte de suas horas ao ofício da escrita. Em correspondências remetidas à sua defesa, o interno aborda tópicos coletivos e conjunturais, voltando sua atenção ultimamente para os percalços legais de seu herdeiro, o expoente do trap, Oruam. O artista é alvo de uma ação criminal por atentado contra a vida de policiais civis, somada a infrações como desacato, resistência e dano qualificado.
Após a cassação de uma liminar de liberdade e a reativação de sua custódia cautelar, o músico passou a ser procurado pelos órgãos de segurança. Em manuscrito divulgado pela seção ‘True Crime‘, assinada por Ullisses Campbell em ‘O Globo‘, o patriarca analisa a postura do filho com temperança, admitindo equívocos nas ações do jovem, mas colocando em dúvida a gravidade das imputações oficiais.
Em registros de setembro do ano passado, o genitor ponderou que, embora sofra com a situação atual, o rapaz careceu de prudência. Conforme a carta, Oruam precisa ser responsabilizado exclusivamente pelos seus atos comprovados, sem a carga de acusações que o pai define como infundadas. Ele apoia uma sanção justa e coerente com a realidade, rechaçando tentativas de vincular o artista à posse ilícita de armas.
Nepomuceno recordou a formação espiritual de seus descendentes e sugeriu que a ascensão meteórica à fama pode ter desviado o centro de gravidade do filho. Mesmo sob o peso das grades, ele crê que o revés será um catalisador para o crescimento de Oruam, a quem vê como um talento expressivo no panorama musical atual, dotado de grande apelo popular.
As páginas também funcionam como um palco para críticas ao sistema jurídico brasileiro. Marcinho VP rebate o uso da doutrina do domínio do fato em seus julgamentos, citando o jurista Claus Roxin. Na ótica do preso, a ideia de que chefias devem saber de todos os delitos de comandados é utilizada de modo enviesado no Brasil para sustentar sentenças e prolongar cárceres provisórios.
Outra queixa frequente diz respeito à fiscalização de suas mensagens. No regime de Segurança Máxima, todo registro enfrenta uma análise minuciosa para interceptar possíveis comandos externos. O detento alega que tal medida anula seu sigilo pessoal e relata que passagens de suas crônicas chegam com frequentes borrões de censura.
Enclausurado no sistema da União desde 2007 e vivendo sob severa restrição de contato, Marcinho VP caminha para o limite de 30 anos de prisão, período previsto quando recebeu suas penas. A data estimada para seu egresso seria setembro de 2026, contudo, o caminho para a liberdade tornou-se mais complicado.
Atualmente, existe uma ordem de prisão preventiva ativa contra ele, fruto de uma apuração de 2024. A investigação foca na participação de cúpulas organizadas em um esquema de roubo de automóveis na região norte carioca. Se esse decreto não for derrubado, o sonho da liberdade neste ano pode ser postergado, mantendo-o aprisionado enquanto o novo imbróglio judicial é processado.