
Para Zezé Motta, o ato de atuar transcende o ofício. "Voltar não é apenas trabalhar, é reafirmar presença." É com esse pensamento que a veterana define seu papel em A Nobreza do Amor, a nova aposta das seis da TV Globo, com lançamento marcado para 16 de março, logo após o desfecho de Êta Mundo Melhor!.
Com 81 anos de vida e 60 anos de uma trajetória artística irretocável, Zezé encara o folhetim com uma percepção renovada. Ela nota que o sentimento atual na TV aberta difere do frio na barriga de outrora. "No começo, cada novela era uma conquista, uma prova, uma afirmação de que eu estava ali para ficar", recorda.
Hoje, a maturidade trouxe um novo peso às suas escolhas. "Existe serenidade, existe gratidão. Eu sei o que representei, e o que ainda represento, principalmente para muitas mulheres negras que sonham em se ver na tela."
Na trama situada na década de 1920, Zezé dá vida a Dona Menina, uma figura central na vila fictícia de Barro Preto, no Rio Grande do Norte. Parteira, artesã e benzedeira, ela transita entre a lida no campo e o acolhimento espiritual da comunidade sob o domínio do coronel Casemiro (Cássio Gabus Mendes).
Segundo a atriz, a força de sua personagem reside no silêncio. "Ela não precisa levantar a voz para ser ouvida. A presença dela já impõe respeito." Atuando como o esteio moral da região, Menina é econômica nas palavras. "Às vezes ela diz muito com um olhar", explica Zezé. O papel toca em feridas e memórias pessoais: sua própria avó foi parteira, trazendo uma carga de ancestralidade real para a ficção.
Motta acredita que o cenário de 1920 serve como uma lente para enxergarmos o Brasil contemporâneo. "Quando olhamos para aquele Brasil, para aquelas estruturas sociais tão rígidas, percebemos o quanto avançamos… e o quanto ainda precisamos avançar".
Embora o figurino e a estética sejam encantadores, a trama foca nas tensões humanas universais. "O cenário muda, a roupa muda, mas as relações humanas continuam complexas", afirma a artista, que espera que a condução da história cative o público. "A gente sempre espera que sim", completa com um sorriso.
Relembrando o início da carreira e sucessos como Beto Rockfeller, Zezé se emociona com a própria longevidade no meio artístico. "Num país onde tantas trajetórias são interrompidas, especialmente para artistas negros, eu consegui construir uma história atravessando décadas", reflete, enfatizando: "Isso não é pouca coisa".
A curiosidade é o que a mantém ativa. "O que me manteve foi a curiosidade. Cada personagem é um mergulho em outra realidade". Para ela, a atuação é o que a define como ser humano. "Atuar me dá sentido. É a minha maneira de existir no mundo."
Além da TV Globo, o ano de 2026 da atriz estará lotado de projetos. Confira:
Streaming e Cinema: Já brilha em (In)Vulneráveis (Universal+) e, em 31 de março, protagoniza Mãe Bonifácia. No segundo semestre, vive a líder quilombola Tereza de Benguela em Somos Teresa e participa do filme Por um Fio.
Documentário: Sua vida é tema de Nas Garras da Felina, dirigido por Mariana Jaspe.
Teatro e Música: Será a grande homenageada do 36º Prêmio Shell de Teatro (18/03) e estreia o espetáculo Prazer, Zezé! O Musical em São Paulo. Além disso, segue com as turnês musicais Atendendo a Pedidos e Coração Vagabundo.