
Uma investida da Polícia Civil de São Paulo, na manhã desta quinta-feira (21), visa desmantelar a estrutura de lavagem de dinheiro da principal facção criminosa do estado. Entre os principais alvos da ação está a criadora de conteúdo digital Deolane Bezerra, que teve sua prisão preventiva decretada sob a suspeita de conexões com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Por demanda da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo, o Poder Judiciário autorizou o congelamento de fundos que ultrapassam R$ 327 milhões. A ofensiva também confiscou quatro propriedades imobiliárias e 17 automóveis, com modelos sofisticados que somam mais de R$ 8 milhões, além de determinar a detenção de seis investigados.
De acordo com as autoridades, o propósito das sanções é sufocar o caixa da organização, resgatar bens de proveniência ilícita e enfraquecer o poder econômico do bando.
A chamada Operação Vérnix, fruto do trabalho conjunto entre a Polícia Civil e o MPSP, iniciou-se em 2019. Naquele período, agentes penitenciários interceptaram bilhetes manuscritos com detentos na Penitenciária II de Presidente Venceslau. Os textos expunham a engrenagem interna do grupo, a conduta de suas lideranças e potenciais atentados contra servidores públicos.
A partir desse material, os investigadores mapearam uma menção explícita à uma “mulher da transportadora”, indivíduo que estaria mapeando os endereços de funcionários do Estado para subsidiar as ações violentas da facção.
As pistas conduziram a um estabelecimento de logística sediado na mesma cidade do interior paulista. Mais tarde, o Judiciário validou que o local funcionava como fachada para lavar dinheiro, dando origem à segunda etapa da apuração, batizada de Lado a Lado. Esta fase expôs transações bancárias suspeitas, evolução patrimonial sem justificativa contábil e o uso definitivo da firma de transportes como caixa eletrônico do crime organizado.
Durante os desdobramentos da Lado a Lado, a extração de dados de um aparelho celular apreendido revelou diálogos entre indivíduos ligados à cúpula da facção. As mensagens apontavam transações financeiras destinadas a Deolane Bezerra, além de indicar um forte laço pessoal e comercial entre a advogada e um dos administradores ocultos da empresa de fretes.
Como funcionava o suposto mecanismo de ocultação:
Aparência de Legalidade: A defesa institucional da investigação aponta que a notoriedade e o sucesso empresarial da influenciadora conferiam uma fachada de normalidade aos fundos de origem ilícita.
Uso da Imagem Pública: Sua alta exposição na internet e transações comerciais legítimas serviam para mascarar a procedência do dinheiro, obliterando o rastro que levava ao bando armado.
Conexões Diretas: Deolane mantinha proximidade comercial e afetiva com um dos “gestores fantasmas” da firma de logística do interior, peça central no fluxo monetário da organização.
Incompatibilidade Fiscal: A quebra de sigilo bancário demonstrou que o volume de recursos movimentado por ela não condizia com o faturamento declarado de suas atividades profissionais.
Blindagem em Bens de Luxo: O fluxo envolvia depósitos sem justificativa via CNPJs e a conversão desses ativos em patrimônio de alto padrão, como mansões e frotas de luxo.
Os relatórios policiais colocaram a criadora de conteúdo no epicentro do caso devido a essas transações milionárias atípicas e contas bancárias de passagem. O ecossistema criminoso utilizava o prestígio dela e a estrutura da transportadora para pulverizar o dinheiro e despistar o fisco.
Nesta terceira etapa dos trabalhos, deflagrada na data de hoje, as autoridades tentam mapear a extensão total dessa rede de lavagem, que se ramifica por múltiplos setores empresariais.