
A tentativa inicial de colaboração premiada apresentada por Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, e prontamente rechaçada pela Polícia Federal (PF) em 20 de maio, revelou um componente inédito quanto à sua conexão com a esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes. Conforme o material, pouco antes da derrocada do banqueiro, com sua detenção e a liquidação da instituição financeira, teria sido redigido um ajuste adicional envolvendo uma firma vinculada ao empresário e o escritório da advogada.
De acordo com o relato, o ajuste estipulava o desembolso de R$ 50 milhões ao escritório de Barci de Moraes, embora não tenha sido formalizado. A existência desse documento foi validada por duas fontes cientes do conteúdo.
Aliados do ex-banqueiro indicam que tal minuta teria sido elaborada em agosto de 2025 diante da iminência de uma alienação da instituição. O objetivo seria assegurar a quitação integral do montante previsto no pacto original, fixado em R$ 3,6 milhões mensais entre janeiro de 2024 e janeiro de 2027, totalizando R$ 130 milhões, mesmo após o encerramento do vínculo entre o escritório e o Banco Master.
O ajuste inicial, exposto anteriormente, previa a advocacia de Viviane perante o Banco Central, o Cade, a PGFN e a Receita Federal. Contudo, todos esses entes sinalizaram, via Lei de Acesso à Informação (LAI), a ausência de registros sobre a atuação da profissional em prol do Master. A desproporção entre o vultoso valor recebido e a inexistência de evidências administrativas reforçou as suspeitas sobre o caráter dos serviços prestados.
Embora Vorcaro tenha submetido uma versão atualizada de sua proposta de delação aos agentes, ainda sob análise, a narrativa pretérita falha em identificar a entidade que figuraria no novo contrato. Também não esclarece a necessidade de garantir pagamentos à esposa do ministro via outro CNPJ ou a urgência em não aguardar a venda do banco para definir a continuidade do serviço.
Dados encaminhados pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado apontam que o Banco Master desembolsou R$ 80.223.653,84 ao escritório de Barci de Moraes entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, a título de consultoria e honorários jurídicos, o que compreende 22 das 36 parcelas estipuladas. As remessas foram interrompidas pela prisão do banqueiro e pela liquidação da empresa.
Portanto, restavam R$ 50 milhões para completar o teto de R$ 130 milhões originais. O documento, obtido durante a Operação Compliance Zero, foi citado por Vorcaro na delação, mas, aparentemente, não foi convincente.
Além de omitir o propósito do novo contrato, o relato não fundamenta a origem da cifra de R$ 50 milhões. Tal fragilidade argumentativa pesou na recusa da PF, uma vez que a história não persuadiu os encarregados da apuração.
Em nota ao O Globo, Barci de Moraes declarou que “não concretizou nenhum outro contrato com Daniel Vorcaro ou qualquer de suas empresas, não tendo prestado serviços advocatícios nem tampouco recebido qualquer valor em honorários”. O ministro Alexandre de Moraes optou por não se manifestar sobre o caso.