
Registros fotográficos capturados em celebrações reservadas dos Camacho, clã do qual Marcola é o principal expoente, dão sustentação às suspeitas de que Deolane Bezerra possua um vínculo estreito com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Novas revelações obtidas pelo g1 têm como base um dossiê detalhado do Ministério Público de São Paulo.
O parecer, elaborado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Presidente Prudente (SP), expõe múltiplos pontos de contato entre a criadora de conteúdo e o círculo íntimo de Marco Willian Herbas Camacho (Marcola).
Detida na ala prisional de Tupi Paulista (SP), a advogada foi alvo da Operação Vérnix. A ação policial desarticulou uma estrutura de ocultação de bens que operava por meio de uma empresa de logística de cargas comandada pelos chefes do escalão máximo da organização.
O estabelecimento, sediado em Presidente Venceslau, pulverizava receitas para contas bancárias diversas com o intuito de despistar os órgãos de controle. Dois desses destinos bancários pertenciam à influenciadora digital.
De acordo com os apontamentos da Promotoria, Deolane surge em uma imagem compartilhada na internet ao lado de Francisca Alves da Silva, que é casada com Alejandro Camacho Júnior, irmão de Marcola (foto representada na capa acima).
Em episódios distintos, a influenciadora foi vista confraternizando com o sobrinho do líder máximo da facção (filho de Alejandro) em encontros em casa.
O grau de intimidade ganha força com outra evidência digital colhida pelos peritos: nas plataformas digitais, Deolane interagia com a conta de Victoria Alves Herbas Camacho, filha de Alejandro e Francisca, e sobrinha de Marcola. O canal da jovem na plataforma digital encontra-se indisponível no momento.
“Ela acaba se imiscuindo [envolvendo] cada vez mais, e agora a investigação demonstra nas atividades dessa organização criminosa”, declarou o delegado da Polícia Civil de SP, Ramon Euclides Guarnieri.
Os investigadores detalharam que Deolane utilizava uma rede de intermediários, tanto pessoas físicas quanto corporações, e suas próprias empresas para dar fluxo a quantias financeiras de procedência duvidosa.
Os autos indicam que a empresária operava como uma tesoureira informal, girando montantes milionários ligados ao grupo criminoso. Ela se aproveitava de seu porte empresarial e do prestígio público para injetar o capital ilícito nos canais bancários oficiais.
Havia também o planejamento, por parte da investigada, de remodelar suas companhias e direcionar ativos para fundos de investimento sediados em Dubai, território internacional estratégico pela proliferação de “shell companies” (empresas de fachada), que servem para encobrir a lavagem internacional de capitais promovida pela facção.
A Promotoria enfatizou que dois alvos da denúncia, os irmãos Paloma Sanches Herbas Camacho e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho (sobrinhos de Marcola), não foram localizados e encontram-se fora do país. Essa condição motivou o pedido de reclusão preventiva para garantir o cumprimento das sanções judiciais.
Frente ao arcabouço de provas, o órgão ministerial formalizou a acusação contra: Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior; Deolane Bezerra Santos; Everton de Souza; Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho; Marco Willian Herbas Camacho (Marcola); Paloma Sanches Herbas Camacho.
Mesmo sob o rígido regime de segurança máxima do sistema carcerário federal, Marcola e Alejandro são acusados de coordenar novas práticas ilegais a partir da prisão, incluindo ocultação de ativos e associação a bando criminoso. Tal cenário justificou, segundo a Promotoria, a necessidade imperiosa de mantê-los presos preventivamente para assegurar a tranquilidade coletiva.
O criminalista Bruno Ferullo, responsável pela representação jurídica de Marcola, Alejandro, Paloma e Leonardo, contestou a denúncia. O defensor sublinhou que os dois líderes principais estão recolhidos em penitenciárias federais de segurança máxima e encontram-se “submetidos a severas restrições de contato e comunicação, o que, por si só, torna inviável qualquer participação nos fatos investigados e evidencia o equívoco da acusação”.
No que diz respeito às acusações imputadas aos sobrinhos do chefe do PCC, a assessoria jurídica questionou os termos adotados pelos promotores: “O mero vínculo familiar com os demais denunciados não pode ser confundido com participação criminosa, sendo inaceitável que a simples proximidade afetiva sirva de fundamento para uma acusação desta magnitude", adverte a nota da defesa.
Em relação à origem dos recursos financeiros e do patrimônio descritos no processo, o advogado assegurou que todos os bens possuem lastro legal comprovado e documentado nos autos. Ferullo concluiu aduzindo que manejará os recursos jurídicos necessários para evidenciar a inconsistência da tese acusatória e a total improcedência dos crimes atribuídos aos clientes.