
Um relatório da Polícia Federal (PF) encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF) esmiuça os laços entre o empresário Daniel Vorcaro e o senador Ciro Nogueira (PP-PI). De acordo com a corporação, a proximidade entre ambos era estruturada por meio de "vantagens indevidas". Os autos da investigação, que tramitavam em segredo de Justiça, tiveram o sigilo revogado na terça-feira (16), por determinação do magistrado relator, André Mendonça.
As apurações da PF indicam que o banqueiro financiava viagens ao exterior, estadias em hotéis de luxo, refeições em estabelecimentos sofisticados e fretamento de jatos particulares para o parlamentar. Além disso, comunicações interceptadas entre o banqueiro e seu articulador financeiro, Felipe Vorcaro, revelam a manutenção de repasses mensais sistemáticos ao congressista, cujos valores oscilavam entre R$ 300 mil e R$ 500 mil.
Conforme dados obtidos pelo jornal O Globo, os gastos do ex-dono do Master com os roteiros internacionais do político somaram R$ 468.721,78. O itinerário incluía passagens por localidades como Nova Iorque, Paris, Lisboa e o sofisticado balneário de esqui alpino em Courchevel, na França. Os investigadores ressaltam que o montante global ainda passa por auditoria e tende a ser superior, rompendo a barreira do meio milhão de reais.
Um dos despachos assinados pelo ministro André Mendonça, fundamentado nos dados colhidos pelos agentes federais, destaca o caráter comercial da parceria:
"Os elementos colhidos demonstrariam a existência de um arranjo funcional e instrumental orientado por benefício mútuo, extrapolando relações de mera amizade".
As autoridades constataram ainda que o congressista usufruía de um imóvel pertencente ao banqueiro de maneira habitual, agindo como se fosse o verdadeiro dono do local.
Em retribuição aos aportes e privilégios recebidos, Nogueira funcionaria como um intermediário dos negócios de Vorcaro dentro das estruturas governamentais. A tese da PF sustenta que o senador colocou o "exercício do mandato parlamentar em favor dos interesses privados de Daniel Vorcaro".
Como exemplo prático dessa atuação, a PF identificou que o parlamentar piauiense propôs uma modificação no texto da PEC nº 65/2023. O teor da proposta teria sido redigido por orientação direta do banqueiro, sendo "impresso e entregue em envelope endereçado a 'Ciro' em seu endereço residencial". A emenda acabou por replicar na totalidade o rascunho elaborado previamente pelo corpo técnico do Banco Master.
A alteração sugerida visava expandir o teto de ressarcimento do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por correntista. O episódio, batizado nos bastidores de "emenda Master", foi rebatido por Ciro, que contestou ter submetido a proposta na "íntegra conforme foi recebida".
No mês de maio, ao se tornar o foco principal de mandados de busca e apreensão na Operação Compliance Zero, Nogueira utilizou canais públicos para se defender. Ele se declarou alvo de uma investida "maligno e sem fundamentos" articulada exclusivamente com o propósito de prejudicar sua imagem pública em período de disputa eleitoral.
Em manifestação publicada em seus perfis na internet, o político recordou um episódio jurídico anterior de 2018 para rebater as novas suspeitas:
"Na primeira tentativa de me parar, o devido processo legal apurou as ilações e mentiras contra mim e ficou comprovada a minha inocência. Mas fica uma pergunta: quem devolve a honra de uma pessoa depois de um ataque tão maligno e sem fundamentos como esse?".