
Diante de uma avaliação de vulnerabilidade conduzida pelo setor de inteligência do Supremo Tribunal Federal, que apontou sérios riscos à integridade física do ministro André Mendonça, a corte decidiu intensificar a segurança ao magistrado. O gatilho para a mudança foi sua nomeação como relator do processo envolvendo o Banco Master, segundo informações da Folha de São Paulo.
Além dessa complexa matéria, Mendonça está à frente de outra apuração de forte impacto político e midiático: as fraudes bilionárias relacionadas a retenções indevidas nos proventos de aposentados do INSS.
Assessores e pessoas próximas da corte revelaram à Folha que a reestruturação tática se traduz em um contingente policial mais robusto e uma vigilância ostensiva em seus deslocamentos. O plano de proteção atualizado engloba tecnologia de ponta e o monitoramento constante de potenciais atos hostis. Durante o julgamento na Segunda Turma que ratificou o encarceramento de Henrique Vorcaro e de Felipe Cançado, pai e primo, respectivamente, do antigo controlador da instituição financeira, o próprio ministro externou a gravidade do cenário:
"Talvez seja simples acabar com a investigação. Talvez basta algum desses atentar contra a integridade física do relator. O pólo mais frágil sou eu", disse o ministro em referência a suspeitas de ligação do grupo do ex-banqueiro com milícias, segundo indicam as apurações da Polícia Federal.
A transformação na escolta do magistrado já é visível nos corredores do STF, nas dependências do Tribunal Superior Eleitoral, onde atua como vice-presidente, e em compromissos externos. De acordo com assessores, episódios suspeitos registrados desde o começo do ano motivaram o sinal de alerta, embora os detalhes desses incidentes sejam mantidos sob sigilo.
A gestão dessa nova logística é coordenada de forma conjunta pela Secretaria de Polícia Judicial e pela presidência do tribunal, atualmente liderada pelo ministro Edson Fachin. Cabe à cúpula administrativa a validação final sobre as alterações de escolta, contando com o suporte do gabinete para alinhar a agenda do magistrado. Consultados pela Folha de São Paulo, nem o STF nem a equipe de Mendonça emitiram posicionamento oficial.
A tensão escalou em março, quando Mendonça expediu uma nova ordem de prisão contra Daniel Vorcaro, ex-dono do Master. A decisão fundamentou-se em conversas interceptadas pela PF no celular do executivo, que mencionavam uma milícia privada batizada de "A Turma", utilizada para intimidar e constranger desafetos.
Fora dos tribunais, Mendonça possui uma agenda intensa: leciona na Universidade Mackenzie, atua como professor visitante na Universidade de Salamanca (Espanha), lidera o Instituto Iter e exerce o papel de pastor na Igreja Presbiteriana de Pinheiros, em São Paulo. Em todas essas esferas, ele agora é acompanhado de perto por policiais do Supremo, inclusive por agentes infiltrados à paisana durante os cultos religiosos.
Embora todo o colegiado do STF conte com segurança permanente, o nível de proteção é maleável e recalibrado conforme as ameaças de cada conjuntura. Atualmente, os inquéritos do INSS e do Master figuram entre os mais sensíveis do país por alcançarem figuras com prerrogativa de foro, inclusive dentro do próprio Judiciário.
Nos bastidores do Congresso Nacional, parlamentares do Centrão enxergam as ações de Mendonça, como o cerco a Vorcaro e os desdobramentos que atingem um dos filhos do presidente Lula, como um fator que o isolará em uma posição de protagonismo absoluto diante do cenário eleitoral de outubro.
A chegada dos autos do caso Master às mãos de Mendonça ocorreu após o ministro Dias Toffoli deixar a relatoria em 12 de fevereiro, fruto de um consenso interno disparado pelas notícias de seus vínculos com a instituição bancária. O mesmo movimento de substituição se repetiu no caso do INSS em agosto passado. Na ocasião, Toffoli repassou a relatoria ao presidente da corte, Luís Roberto Barroso, após o procurador-geral da República, Paulo Gonet, contestar sua permanência e exigir uma nova distribuição por sorteio.
Anteriormente, em junho, Toffoli havia centralizado em seu gabinete todas as investigações da PF correlatas ao INSS, além de ter puxado para o Supremo o acervo do caso Master no final do ano passado.
Assim que assumiu o controle, Mendonça reverteu diretrizes do antigo relator: concedeu mais liberdade de atuação aos investigadores da Polícia Federal e derrubou a restrição imposta por Toffoli, que limitava a apenas quatro peritos o acesso aos materiais apreendidos. Para blindar o processo contra vazamentos internos e estratégias protelatórias das defesas, o ministro optou por desmembrar as apurações, defendendo publicamente uma postura de sobriedade e absoluto sigilo na condução das ações jurídicas.