Lula tenta se afastar de Moraes enquanto procura enfraquecer Mendonça

Nos bastidores, o Palácio do Planalto articula para conter danos

04/09/2026 às 13h15
Por: Marcela Mattiolli Colaboração para Felipeh Campos Fonte: Gazeta do Povo
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Reprodução: Sergio Lima/Poder360
Reprodução: Sergio Lima/Poder360

A tática adotada pelo comitê de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) diante do turbilhão no Supremo Tribunal Federal, deflagrado após a exposição de diálogos entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, consiste em manter máxima distância e reiterar o mote de que cada um responde pelos próprios atos, postura recorrente do mandatário em cenários de desgaste político.

Na noite da última quinta-feira (3), o chefe do Executivo difundiu uma gravação em suas redes sociais reivindicando para o próprio governo o crédito pelas apurações ligadas ao escândalo do Banco Master, endossando investigações contra quaisquer autoridades sem colar sua imagem à do magistrado.

A mesma postura foi adotada vésperas antes pelo dirigente nacional petista Edinho Silva. Sem nomear diretamente Moraes ou Vorcaro, ele declarou que o “sistema apodreceu”, defendeu reestruturações político-judiciais e frisou que “ninguém está acima da lei”, inclusive figuras do Judiciário.

Nos bastidores, contudo, o Palácio do Planalto articula para conter danos. Na terça-feira (1º), Lula recebeu Gilmar Mendes no Planalto e, na mesma noite, encontrou-se com o presidente do STF, Edson Fachin, no Alvorada, com a participação de Flávio Dino. O governo tenta gerenciar o tabuleiro eleitoral, pois precisará da Corte e do TSE enquanto monitora os reflexos da crise junto ao eleitorado.

Enquanto isso, a tropa de choque digital e parlamentar da base petista direciona baterias para enfraquecer o ministro André Mendonça.

O magistrado retirou o sigilo de dados reunidos pela PF, expondo comunicações e registros entre Moraes e o antigo banqueiro. O objetivo central do PT é colar a movimentação de Mendonça a uma manobra eleitoral em favor de Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Alcolumbre intensifica discurso

No Parlamento, aliados governistas reagiram. Pressionado pela oposição a pautar o impeachment de Moraes e alvo de críticas de Flávio Bolsonaro, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), rebateu na quarta-feira (2) ao lembrar de recursos destinados ao filme Dark Horse. “Todo mundo esqueceu que pediram R$ 130 milhões para as mesmas pessoas para fazer um filme. E agora o culpado é só o ministro Alexandre de Moraes”, disparou.

Dias antes, Paulo Pimenta (PT-RS) havia exigido o levantamento do sigilo total sobre o caso Master, rechaçando "vazamentos seletivos" e apontando que “não dá para proteger alguém porque é candidato a presidente da República.” No mesmo sentido, José Dirceu pediu que Mendonça se declare impedido de atuar na pauta, remetendo a um encontro que o ministro teve com Vorcaro em março de 2025 no Instituto Iter, em São Paulo. Mendonça alegou ter apenas ouvido o empresário e seu ex-advogado, Ciro Rocha Soares.

Apoiadores de Moraes buscam nulidade das ações de Mendonça No Supremo, defensores de Moraes articulam a anulação dos atos de Mendonça sob a premissa de que ele atropelou o rito legal ao ordenar diligências contra outro membro da Corte sem aval do plenário. A mesma tese foi defendida pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, citado nas mensagens interceptadas ao lado do chefe da PF, Andrei Rodrigues.

Na quinta-feira (3), Moraes acionou Fachin para investigar Mendonça no inquérito das fake news com base em um relatório policial que aponta supostas irregularidades nas operações Compliance Zero e Sem Desconto. A expectativa é que o plenário derrube as medidas de Mendonça na próxima semana, contando com o apoio de ministros que enxergam extrapolação de competências, entendimento já antecipado por Gilmar Mendes em junho ao classificar a atuação de Mendonça nas tratativas de delação como “erro crasso”.

Campanha investe nas redes sociais

A militância petista também passou a impulsionar um novo áudio extraído do celular de Vorcaro, no qual o advogado Ciro Rocha Soares envia uma foto ao lado de Mendonça em uma alfaiataria brasiliense, comentando: “Trabalhando por você. Levei o André lá no Vasco agora para fazer um terno”. Na noite de quinta, Mendonça apresentou notas fiscais do estabelecimento em nome de sua esposa, Janey Nagliatti Mendonça, para afastar suspeitas.

Paralelamente, vazamentos atingiram figuras da direita, como um áudio do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) a Vorcaro pedindo apoio para destravar um negócio de mineração. O parlamentar negou irregularidades e atribuiu os vazamentos a uma "cortina de fumaça" sobre a crise do STF. Para o analista Leonardo Barreto, o cenário configura uma clara “dinâmica de guerra política” para deslocar o foco das atenções.

A tentativa de afastamento Mesmo com o histórico de proximidade entre Lula e o STF, reforçado recentemente por articulações em jantares e defesas públicas da Corte, aliados já adotam tom de distanciamento. A deputada Gleisi Hoffmann pontuou que não vê óbice em um processo de impeachment caso haja crime justificável: “Não é possível ter dois pesos e duas medidas. Ninguém está acima da lei. A lei deve ser aplicada a qualquer pessoa, doa a quem doer.”

Especialistas avaliam que, caso o desgaste ameace a viabilidade da candidatura governista, o presidente poderá afastar-se publicamente de Moraes, repetindo rupturas históricas de seu trajeto político, embora analistas políticos alertem que os desdobramentos e vazamentos cruzados mantêm potencial de impacto negativo generalizado no tabuleiro eleitoral.

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