Vox Brasil: as controvérsias da pesquisa que coloca Lula na frente de Flávio no segundo turno

Diferenças expressivas em recortes regionais e de renda, divergência em relação a outro levantamento e antecedente judicial envolvendo o instituto colocam os números em perspectiva

19/10/2026 às 13h20
Por: Mateus Pereira Fonte: Exame, Folha de S. Paulo e Gazeta do Paraná
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Foto: Renato Pizzutto/Band
Foto: Renato Pizzutto/Band

A pesquisa da Vox Brasil que colocou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) numericamente à frente de Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais chama atenção por seus resultados segmentados e pela diferença em relação a outros levantamentos recentes. Publicado no domingo (18), o estudo aponta 46,4% das intenções de voto para o presidente e 44,6% para o senador. A diferença de 1,8 ponto percentual, entretanto, está dentro da margem de erro de 2,15 pontos, o que caracteriza empate técnico.

O levantamento ouviu 2.100 pessoas entre os dias 15 e 17 de outubro, por meio de entrevistas presenciais em domicílio. A pesquisa tem nível de confiança de 95% e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-04332/2026. Nos votos válidos, que excluem brancos, nulos e indecisos, Lula aparece com 51%, contra 49% de Flávio. Embora os resultados indiquem uma vantagem numérica do petista, a diferença não permite afirmar que ele esteja estatisticamente à frente do adversário.

Recortes da pesquisa chamam atenção

Em reportagem publicada no domingo, a Exame detalhou os resultados por região, faixa de renda, escolaridade e gênero. Os números mostram cenários bastante diferentes entre os grupos entrevistados. No Nordeste, Lula aparece com 56,7% das intenções de voto, enquanto Flávio registra 30,6%. No Norte, o presidente tem 61,1%, contra 37,9% do senador. Já no Sudeste, Flávio aparece numericamente à frente, com 49,4%, contra 43,3% de Lula. A vantagem do candidato do PL também aparece no Sul e no Centro-Oeste.

Um dos recortes que mais chama atenção está relacionado à renda familiar. Segundo os dados publicados pela Exame, entre os entrevistados com renda superior a dez salários mínimos, Flávio registra 80% das intenções de voto, enquanto Lula aparece com 15%. O resultado contrasta com outros segmentos da mesma pesquisa, mas não constitui, por si só, evidência de erro. Para avaliar a consistência desse percentual, é necessário considerar a quantidade de entrevistados nesse grupo, a composição da amostra e os critérios utilizados para ponderar os resultados. A análise dos dados completos é fundamental para determinar se existe alguma inconsistência metodológica concreta.

Outros levantamentos apresentam cenário diferente

A diferença entre institutos também merece atenção. Em pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira (19), o cenário de segundo turno mostra Flávio com 50,3% dos votos válidos e Lula com 49,7%. Em votos totais, o senador registra 46,5%, enquanto o presidente tem 45,9%. Os dados foram divulgados pela Folha de S.Paulo e pela Exame.

A pesquisa BTG/Nexus ouviu 2.002 eleitores entre os dias 16 e 18 de outubro, com margem de erro de dois pontos percentuais. Assim como no levantamento da Vox, a diferença está dentro da margem de erro e caracteriza empate técnico. Apesar da inversão na vantagem numérica, as duas pesquisas retratam disputas equilibradas. Como os institutos utilizam metodologias e procedimentos próprios, os resultados devem ser comparados com cautela, sem concluir automaticamente que um levantamento está errado porque apresenta números diferentes do outro.

Vox já teve pesquisa suspensa no Paraná

Outro episódio envolvendo o instituto ocorreu em julho deste ano. Conforme noticiado pela Gazeta do Paraná, o Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR) determinou a suspensão da divulgação de uma pesquisa da Vox Brasil sobre a disputa pelo governo estadual. A decisão atendeu a um pedido do PSD e apontou a ausência de um arquivo obrigatório com a relação dos bairros e municípios abrangidos pelo levantamento.

A decisão judicial tratava de uma pesquisa diferente, registrada sob o número PR-09668/2026, e não do levantamento presidencial atual. Na ocasião, a Justiça determinou que a divulgação fosse suspensa até o cumprimento das exigências eleitorais. O episódio é um antecedente relevante para contextualizar o histórico do instituto, mas não comprova irregularidade na pesquisa sobre Lula e Flávio.

O TSE também esclarece, em sua página oficial sobre pesquisas eleitorais, que a Justiça Eleitoral não realiza controle prévio dos resultados divulgados pelos institutos. O registro é obrigatório, mas não representa uma certificação antecipada da precisão dos números. Até o momento, os dados consultados permitem apontar diferenças entre levantamentos, resultados expressivos em determinados recortes e um antecedente judicial envolvendo outra pesquisa da Vox. Não há, porém, evidência apresentada nesta apuração que permita afirmar que o levantamento presidencial atual seja fraudulento.

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