
Em um momento de alívio global, Israel e o Hamas firmaram no Egito um pacto crucial, o qual estabelece um cessar-fogo por tempo indeterminado e a libertação mútua de prisioneiros — reféns israelenses em cativeiro e detidos palestinos. A medida, que marca uma virada diplomática na escalada de violência que já durava dois anos, foi endossada pelo gabinete israelense na noite de quinta-feira (9) e entrou em vigor na manhã desta sexta-feira (10), conforme comunicado pelas Forças de Defesa de Israel (FDI).
O acerto, mediado pelo Catar, Turquia e Estados Unidos e estruturado em um plano de 20 pontos proposto pelo presidente americano, Donald Trump, é visto como um "primeiro passo para uma paz sólida, duradoura e eterna", nas palavras de Trump em sua rede social.
A ofensiva militar israelense, desencadeada após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, que resultou na morte de cerca de 1,2 mil pessoas e na captura de 251 reféns, levou a um saldo trágico de mais de 67 mil vítimas fatais. A devastação da infraestrutura de Gaza e a crise humanitária foram tão severas que a comissão investigadora da ONU chegou a classificar as ações de Israel como genocídio.
O cerne do primeiro acordo estabelece:
Troca de Cativos: A soltura dos reféns vivos pelo Hamas deve ocorrer em um prazo de 72 horas.
Retirada e Ajuda: O Exército de Israel deverá retirar suas tropas de Gaza (embora mantenha o controle de 53% da Faixa), permitindo a entrada de socorro humanitário no território palestino.
O anúncio foi recebido com alívio coletivo mundial, mas enfrenta forte resistência interna no gabinete de Israel.
Este armistício, no entanto, é apenas o início, um "cessar-fogo, não um acordo de paz". Seu sucesso duradouro depende da superação de quatro pontos-chave, detalhados no plano de paz:
A confiança entre os lados é mínima. O mês passado foi marcado por uma tentativa de assassinato israelense à equipe negociadora do Hamas em Doha, e um cessar-fogo anterior, em janeiro, foi rompido por Israel em março. A garantia de que "a guerra acabou", dada por membros do Hamas que alegam ter recebido promessas dos mediadores, contrasta com a declaração do Primeiro-Ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que classificou o feito como "vitória diplomática", mas não confirmou o fim definitivo do conflito. O envolvimento direto de Trump, que pressionou ambas as partes com ameaças (incluindo um possível "extermínio total" ao Hamas), é o fator crucial para manter o equilíbrio.
Este ponto central do plano americano é altamente controverso. O Hamas historicamente rejeita depor armas, condicionando o gesto ao estabelecimento de um Estado palestino soberano. Israel, por sua vez, tem como meta explícita a destruição do grupo. Netanyahu prometeu que o Hamas seria "desarmado e Gaza desmilitarizada, seja por bem ou por mal", indicando que a ausência de detalhes nesse quesito é uma bomba-relógio.
O Hamas exige a saída total das forças israelenses. O acordo assinado é ambíguo, estabelecendo que a retirada ocorrerá com "base em padrões, marcos e prazos" a serem definidos. Embora um mapa da Casa Branca mostre uma retirada progressiva (de 53% de controle inicial, passando por 40% e 15% finais), a última fase prevê um "perímetro de segurança" sem prazo claro para a desocupação completa, o que certamente será contestado.
O plano prevê que o Hamas não terá voz na gestão futura de Gaza. A proposta é uma administração transitória de tecnocratas palestinos, sob a supervisão de uma "Junta de Paz" liderada por Donald Trump e com a participação de Tony Blair. O poder seria, eventualmente, transferido para a Autoridade Palestina (AP), rival do Hamas. Contudo, Netanyahu já sinalizou rejeitar a participação da AP, enquanto o Hamas insiste em desempenhar algum papel como parte de um "movimento palestino unificado". Esse impasse é agravado pela oposição dos ultranacionalistas israelenses à própria ideia de um Estado palestino.
O sucesso da trégua permanece, por enquanto, um equilíbrio delicado, inteiramente dependente da vontade de ambas as partes em honrar os termos acordados.