Trocas de emissora, apostas arriscadas e mudanças históricas marcaram o ano

Entre nostalgia, mudanças no jornalismo e queda de audiência, emissoras encerram o ano pressionadas a se reinventar

31/12/2025 às 01h25 Atualizada em 01/01/2026 às 14h57
Por: Natália Raquel
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Foto: Divulgação
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O ano de 2025 entrou para a história da televisão brasileira como um período de transição intensa. Trocas de apresentadores, reformulações de grade, apostas em formatos consagrados e sinais claros de desgaste na audiência marcaram o setor. Entre despedidas simbólicas e recordes negativos no Ibope, as emissoras fecharam o ano pressionadas por mudanças no consumo de conteúdo.

Jornalismo e dança das cadeiras

As mudanças não se restringiram à Globo. Outras emissoras também passaram por reformulações em seus telejornais e quadros de apresentadores ao longo de 2025.

Na Record, a principal mudança ocorreu em março, com a saída de Celso Freitas, âncora do Jornal da Record desde 2006. Ele foi substituído por Sérgio Aguiar, que acabou dispensado meses depois, dando lugar a Eduardo Ribeiro. Freitas foi contratado pelo SBT para integrar o elenco do SBT News, novo canal jornalístico do Grupo Silvio Santos.

Ainda na Record, Ticiane Pinheiro, apresentadora do Hoje em Dia, deixou a emissora após quase 20 anos. Até o fim de 2025, ela não havia anunciado seu novo destino profissional.

No SBT, o ano foi marcado por contratações e dispensas. A emissora reforçou o time do SBT News com nomes como Basília Rodrigues (ex-CNN Brasil) e Amanda Klein (ex-RedeTV!). Ao mesmo tempo, demitiu Márcia Dantas, apresentadora do Chega Mais Notícias, que passou a integrar a Jovem Pan News.

O caso mais emblemático, porém, foi o de José Luiz Datena. Contratado para comandar o Tá na Hora, telejornal que concorria diretamente com o Brasil Urgente, da Band, Datena pediu rescisão contratual após cinco meses e deixou o SBT. Ao fim do ano, ele estava na RedeTV!.

Na GloboNews, a dança das cadeiras também ganhou destaque. Em agosto, a emissora demitiu Daniela Lima, então apresentadora do Conexão GloboNews. Algumas semanas depois, Rafael Colombo assumiu o comando do programa. Daniela Lima seguiu como colunista do UOL e passou a integrar a TMC, antiga rádio Transamérica.

O conjunto de mudanças reforçou a percepção de um ano marcado por instabilidade no jornalismo televisivo, com emissoras testando novos nomes, formatos e estratégias para conter a queda de audiência e se adaptar a um público cada vez mais fragmentado.

Novelas e clássicos em cena

Na teledramaturgia, 2025 confirmou a força da memória afetiva como estratégia de programação. O remake de Vale Tudo voltou ao ar cercado de expectativa, ampla divulgação e forte repercussão. A nova versão dividiu opiniões quanto à fidelidade ao texto original, mas se manteve entre os assuntos mais comentados do ano nas redes sociais, impulsionando debates sobre ética, ambição e comportamento — temas centrais da obra.

A comparação com a versão exibida no fim dos anos 1980 foi inevitável. Trechos clássicos, personagens emblemáticos e frases icônicas ganharam nova leitura, enquanto escolhas de roteiro e atualização de contextos geraram críticas e elogios. O resultado foi um engajamento contínuo, que extrapolou a audiência tradicional e alcançou públicos que não haviam acompanhado a novela original.

                                                         Elenco de Vale Tudo Foto: Reprodução/Globo

A aposta reforçou uma tendência já observada na TV aberta: em um cenário de audiência fragmentada e consumo sob demanda, clássicos funcionam como ponto de partida seguro. Eles oferecem reconhecimento imediato, facilitam a entrada do público e criam lastro para ações digitais, repercussão nas redes e conversas fora da tela.

Ao mesmo tempo, o sucesso relativo do remake reacendeu o debate sobre os rumos da teledramaturgia. Para parte do mercado, revisitar títulos consagrados é uma forma de ganhar tempo e atenção em um ambiente competitivo. Para outra, o desafio passa a ser equilibrar nostalgia e inovação, sem transformar o passado em única fonte de renovação.

Em 2025, Vale Tudo cumpriu esse papel: mostrou que o repertório clássico ainda mobiliza audiência e debate, mas também evidenciou a pressão por novas histórias capazes de dialogar com um público cada vez mais disperso e exigente.

Reality shows e formatos conhecidos

Os realities continuaram a ocupar espaço central na programação em 2025, mas passaram a conviver com sinais claros de desgaste. The Masked Singer Brasil, agora apresentado por Eliana, encerrou sua temporada no início do ano com forte repercussão nas redes sociais e ampla exposição digital. No Ibope, porém, o desempenho foi irregular, o que levou a Globo a reavaliar o futuro do formato e o espaço ocupado pela atração na grade.

O resultado alimentou uma discussão que atravessou os bastidores da TV ao longo do ano: a chegada de Eliana à Globo, celebrada como um dos grandes movimentos de mercado recentes, ainda busca um encaixe definitivo. A apresentadora manteve visibilidade e prestígio, mas os números levantaram dúvidas sobre se a aposta, ao menos no curto prazo, entregou o impacto esperado em audiência.

Outros realities também marcaram a grade. MasterChef Celebridades levou famosos à cozinha da Band e reforçou a força da franquia, enquanto Power Couple Brasil e A Fazenda 17 seguiram apostando em conflitos, provas e dinâmicas já conhecidas do público.

O balanço do ano mostrou que formatos consagrados ainda têm fôlego e reconhecimento, mas enfrentam concorrência crescente fora da TV aberta. Em 2025, os realities seguiram como aposta segura  embora cada vez mais pressionados a se reinventar para não perder espaço em um cenário de consumo fragmentado.

O sinal vermelho da audiência

O dado mais preocupante de 2025 veio do Ibope. O Fantástico fechou o ano com a pior média de audiência de seus 52 anos de história. O resultado foi o mais baixo da década e acendeu um sinal de alerta interno na TV Globo, que passou a discutir ajustes de formato, linguagem e duração da atração.

Tradicional pilar do domingo à noite, o Fantástico sempre funcionou como vitrine editorial e termômetro do comportamento do público. Em 2025, porém, o programa passou a sentir com mais força a mudança de hábitos do telespectador, que migrou para o consumo sob demanda. Streaming, redes sociais e vídeos curtos passaram a disputar diretamente o tempo que antes era dedicado à revista eletrônica.

A concorrência não veio apenas de outros canais, mas do celular. Reportagens longas, quadros fixos e a estrutura clássica do programa enfrentaram dificuldade para dialogar com um público acostumado a conteúdos rápidos e personalizados. Mesmo com investimento em pautas investigativas, jornalismo de serviço e quadros de entretenimento, o desgaste ficou evidente nos números.

Nos bastidores, a avaliação foi de que o problema não se resume a um conteúdo específico, mas ao modelo. O Fantástico passou a simbolizar o desafio maior da TV aberta: como manter relevância em um horário tradicional quando a audiência já não se organiza mais em torno da grade fixa.

O desempenho histórico negativo não significou perda de prestígio imediato, mas reforçou a necessidade de mudanças. Em 2025, o programa deixou claro que nem mesmo marcas consolidadas estão imunes à transformação do consumo audiovisual  e que a reinvenção deixou de ser opção para se tornar questão de sobrevivência.

Novos produtos e virada digital

Além da programação tradicional, as emissoras ampliaram investimentos em formatos curtos e multiplataforma. Produções com capítulos verticais e conteúdos pensados para redes sociais e streaming ganharam espaço ao longo do ano. A estratégia buscou dialogar com o público jovem, cada vez mais distante da grade fixa da televisão aberta.

 

Ao fim de 2025, a televisão brasileira se vê diante de um ponto de inflexão. As mudanças no jornalismo, a aposta recorrente na nostalgia, o desempenho irregular dos realities e a queda histórica de audiência de programas consagrados revelam um setor pressionado a se reinventar. A TV aberta segue relevante, mas já não ocupa sozinha o centro da atenção do público. O desafio que se impõe para 2026 é claro: encontrar equilíbrio entre tradição e inovação, preservar marcas fortes sem ignorar novos hábitos e transformar a crise de audiência em oportunidade de renovação. O próximo capítulo será decisivo para definir quem consegue atravessar essa transição sem perder identidade  e quem ficará pelo caminho.

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