Presidente interina da Venezuela inicia reformas no governo e reaproxima o país dos EUA

Enquanto o casal Maduro aguarda o desfecho judicial em uma cela no Brooklyn, Nova York, Delcy Rodríguez reconfigura o tabuleiro administrativo e legislativo, imprimindo uma nova identidade ao chavismo em pleno 2026

03/02/2026 às 10h18
Por: Marcela Mattiolli Colaboração para Felipeh Campos
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Delcy Rodríguez - Reprodução: REUTERS/Gaby Oraa
Delcy Rodríguez - Reprodução: REUTERS/Gaby Oraa

Passou-se um mês desde que Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram detidos pelas autoridades norte-americanas. Nesse intervalo, a Venezuela iniciou uma metamorfose política sob a tutela de Delcy Rodríguez. A presidente interina tem surpreendido ao flexibilizar estruturas rígidas: libertou detentos políticos, impulsionou reformas econômicas e, em um movimento diplomático audacioso, recebeu a representação dos EUA no Palácio de Miraflores na última segunda-feira (2).

Enquanto o casal Maduro aguarda o desfecho judicial em uma cela no Brooklyn, Nova York, Rodríguez reconfigura o tabuleiro administrativo e legislativo, imprimindo uma nova identidade ao chavismo em pleno 2026.

Para a analista Luz Melly Reyes, em conversa exclusiva ao Terra, a velocidade das mudanças desafia a lógica de quem conhecia a gestão anterior.

"Um mês após a saída de Nicolás Maduro do governo e sua extradição para os Estados Unidos, na Venezuela vêm acontecendo coisas impensáveis há trinta dias. Algumas delas são a aprovação da reforma da Lei de Hidrocarbonetos, a liberação de pelo menos 300 presos políticos e a reabertura da Embaixada dos Estados Unidos em Caracas", afirmou a especialista.

Contudo, Reyes pondera que essa abertura pode não ser puramente democrática, mas sim um instinto de sobrevivência. Ela define o momento como "uma etapa de reforço tático que o governo sabia que lhe convinha e sobre a qual estava trabalhando para poder ter novas entradas de dinheiro que evitassem que o país caísse em uma crise ainda mais profunda em termos econômicos". Para a analista, o foco são "ajustes estratégicos e econômicos do governo interino do que avanços efetivos na democratização do país".

Reaproximação com Washington

A retomada do diálogo com a Casa Branca avança em ritmo acelerado. Laura Dogu, encarregada de reativar a presença diplomática dos EUA em solo venezuelano — encerrada em 2019 —, reuniu-se com os irmãos Rodríguez (Delcy e Jorge). O encontro serviu para alinhar as fases propostas pelo Secretário de Estado, Marco Rubio:

  1. Estabilização;

  2. Recuperação financeira;

  3. Reconciliação e transição.

O ministro de Comunicação venezuelano, Miguel Pérez Pirela, confirmou que a agenda bilateral está ativa, enquanto Félix Plasencia já articula em Washington a reabertura da sede diplomática venezuelana.

Apesar do otimismo moderado, o advogado Ali Daniels, da ONG Acesso à Justiça, alerta para as entrelinhas das reformas. Ele destaca que a nova Lei de Hidrocarbonetos rompe com 25 anos de ideologia estatal:

"Com a reforma da Lei Orgânica de Hidrocarbonetos, foram feitas mudanças radicais e essenciais à indústria petrolífera do país, que contradizem todo o discurso oficial dos últimos 25 anos e modificam a forma como o recurso será manejado", afirmou ao Terra.

Sobre a questão humanitária, Daniels é cauteloso. Ele aponta que os indultos são parciais e restritivos: "Não são libertações plenas, mas ex-prisões submetidas a muitas restrições. Muitas pessoas liberadas são proibidas de falar em público e obrigadas a se apresentar diariamente aos tribunais".

A promessa de uma anistia geral e a transformação da temida prisão "El Helicoide" em um centro social são vistas como tentativas de "curar feridas", mas o diretor ressalta:

"Recebemos isso como uma boa notícia, mas não podemos dar um sinal completo enquanto não tivermos o texto da lei e vermos qual será seu alcance".

A urgência por transparência é reforçada pelo estado de saúde de ex-detentos, como Óscar Castañeda, cujas imagens recentes mostram sequelas físicas e cognitivas severas, gerando comoção nas redes sociais.

Delcy Rodríguez tem demonstrado autonomia ao afastar figuras carimbadas da era Maduro, como Alex Saab. Em contrapartida, promoveu nomes como Calixto Ortega para captar investimentos e nomeou Daniella Cabello — filha de Diosdado Cabello e apelidada de "princesinha do chavismo" — para o Ministério do Turismo, visando limpar a imagem internacional do país.

Ouro Negro em Nova Fase

A economia, ainda dependente do petróleo, respira através de novas regras. O economista José Guerra aponta que a Venezuela agora consegue vender óleo a preços de mercado, sem os descontos antes exigidos pela China. Entretanto, o fluxo de caixa é monitorado pelos EUA, o que Guerra descreve como um envio "algo discricionário".

Nas ruas, o sentimento é de uma "calma esperançosa". Entre relatos de funcionários públicos sobre a precariedade da energia elétrica e análises psicológicas de profissionais como Rodolfo Romero, a sensação geral é de que, após um mês, o país respira um ar menos denso, aguardando que as promessas de infraestrutura e estabilidade finalmente saiam do papel.

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