
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) classificou como “insatisfatória” a conduta da Enel durante a crise energética que deixou 4,4 milhões de pessoas no escuro em São Paulo, em dezembro de 2025. O parecer técnico detalha negligências na gestão de crises, conservação preventiva deficiente e dados operacionais desencontrados.
O relatório da agência reguladora aponta uma “baixa produtividade” no trabalho de campo. Com uma média de apenas 2,82 reparos por grupo, o desempenho foi considerado muito inferior ao necessário. Embora a concessionária tenha mobilizado 1.500 frentes de trabalho, a Aneel identificou um “elevado percentual” de profissionais sem experiência rotineira em situações de emergência.
Outro ponto crítico foi a concentração de pessoal apenas em horário comercial (8h às 17h), deixando a rede desassistida nos momentos mais silenciosos do dia:
“No dia 11/12/2025, por exemplo, enquanto 60% do efetivo atuava no horário comercial, apenas 10% permanecia em campo durante a madrugada, o que resultou em uma resposta insuficiente diante da magnitude do evento”, destaca o documento.
A investigação revelou que aproximadamente 59% dos incidentes foram provocados pela força dos ventos, resultando em fiações rompidas ou frouxas e danos estruturais.
A estratégia logística também foi questionada: a Enel privilegiou o uso de motocicletas em detrimento de caminhões, o que, segundo a agência, acabou “dificultando assim a execução dos serviços mais complexos de restauração da rede elétrica”.
Houve ainda uma grave inconsistência na transparência das informações. Inicialmente, a empresa relatou 2,2 milhões de unidades consumidoras afetadas, mas depois “atualizou” o número para o dobro: 4,4 milhões.
Municípios com maior tempo de interrupção:
Pirapora do Bom Jesus: 147 horas.
Cotia: 111 horas.
Cajamar: 98 horas.
São Paulo (Capital): Mais de 95 horas.
Devido à gravidade, o Ministério de Minas e Energia já sinalizou que pretende pedir a extinção (caducidade) da concessão da Enel.
Em sua defesa, a Enel sustenta que agiu com transparência e que respeitou as metas do plano de recuperação de 2024. A empresa alega ter colaborado com o órgão regulador enviando provas técnicas de suas ações.
“Ao longo de todas as fiscalizações, a empresa colaborou de maneira transparente com o regulador, apresentando dados técnicos que comprovam o cumprimento dos indicadores e as ações realizadas nos recentes eventos climáticos”, afirmou em nota.
A distribuidora argumenta que, apesar da intensidade do clima, a normalização do sistema foi mais ágil do que em crises anteriores:
“Apesar da severidade do evento climático registrado em 10 e 11 de dezembro, com ventos prolongados, a Enel São Paulo restabeleceu o serviço aos clientes mais rapidamente do que em outubro de 2024. Ao longo dos dias, inclusive nas primeiras 24 horas, a distribuidora mobilizou um número superior de equipes em relação aos parâmetros previstos nos planos de contingência e recuperação”, concluiu.