
Conhecida pela discrição absoluta fora dos holofotes, a veterana Ana Lúcia Torre escolheu o marco dos 80 anos de vida para abrir o baú de recordações. Com 60 anos de uma trajetória brilhante, especialmente no imaginário teledramatúrgico brasileiro, a artista decidiu que era o momento de transformar sua biografia em teatro. O estopim para essa mudança de postura foi um susto médico: seu corpo parou de produzir cortisol — hormônio essencial para o metabolismo — e a mergulhou em um estado de fadiga profunda.
"Comecei a ficar totalmente sem energia, já vinha há uns dois anos. Eu sempre fui muito de fazer tudo ao mesmo tempo e comecei a me sentir cansada. Achava que era por causa do excesso de trabalho, porque em seis anos eu fiz seis novelas, um filme e duas peças. Não precisa, mas até que eu caí total", revelou a atriz em entrevista ao Terra.
O processo de cura não foi imediato, mas trouxe uma clareza renovadora. "Até que eu e meus amigos médicos conseguissem descobrir o que era levou um certo tempo e isso me causou uma grande perturbação, porque sempre fui muito ativa e, de repente, me vi parada, sem energia. Quando a gente chegou à conclusão do que era, parece que eu dei um boom na minha vida", recorda Torre, hoje plenamente recuperada.
Embora tenha sido alvo de diversos convites para biografias literárias, Ana Lúcia sempre manteve um escudo em torno de sua intimidade, inclusive mantendo-se distante das redes sociais. O motivo? O respeito ao espaço alheio e o receio da desinformação contemporânea.
"Eu acho o seguinte, eu sou atriz, agora meu filho, meu ex-marido, minha nora, meus netos, eles não têm nada com isso. Eles não têm nada com essa responsabilidade que implica socialmente ser atriz", pontua. Ela reforça sua natureza introspectiva: "E também pelo fato de que hoje em dia, qualquer motivo é motivo para que as pessoas deturpem aquilo que você fala. Eu também sou uma pessoa muito reservada, muito na minha".
A virada de chave ocorreu após o restabelecimento de sua saúde. Em uma conversa com o encenador, Sergio Módena, nasceu o espetáculo Olhos nos Olhos, atualmente em exibição na capital paulista. No palco, acompanhada pelo piano de Diógenes Junior, ela entrelaça sua história às composições emblemáticas de Chico Buarque, como Atrás da Porta e Meu Guri.
"Conversamos e chegamos à conclusão de que eu podia falar da minha vida com tranquilidade agora, de fatos inclusive bem significativos e que, talvez, grande parte dos meus próprios amigos não conheciam. E fomos calçando essa história com as letras das músicas do Chico Buarque. Eu sempre costumo dizer que o Chico é um grande historiador da nossa época, de 1945 para cá", explica a atriz. "Tudo que eu fui contando tinha uma ou duas letras dele que se adequavam àquele assunto."
No espetáculo, a plateia é convidada a percorrer temas densos e humanos: os tempos de faculdade, as dores e delícias dos relacionamentos, a maternidade tardia e um capítulo antes guardado a sete chaves — sua prisão durante os anos da ditadura militar.
A essência da peça, contudo, é o otimismo da reinvenção. "Não existe idade, não existe prazo de validade para você se renovar. Eu que aos 79 anos fiquei de cama sem saber o que tinha e agora estou fazendo um espetáculo solo, acompanhado do meu Diógenes, pianista."
Ana Lúcia finaliza com uma lição sobre autonomia emocional: "Tem um momento da peça que eu digo que eu tive um primeiro casamento, acabou, me casei de novo aos 44 anos. Em 1974, vivi essa experiência incrível e também decidi me separar aos 67. E eu digo, isso é muito importante, a liberdade de dizer sim, mas também de dizer não, de romper, porque não existe idade para se renovar".
Período: De 16 de janeiro a 29 de março.
Horários: Sextas e sábados às 20h30; domingos às 18h30.
Endereço: BTG Pactual Hall - Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, São Paulo - SP.
Valores: De R$ 25 a R$ 160.
Duração: 75 minutos.
Classificação indicativa: 12 anos.