
O desfecho da produção da Max, Dona Beja, reservou um final feliz para o vínculo afetivo entre duas personagens que se conheceram em um convento. Bruna Spínola, a intérprete de Eulália, celebra a união: "Eu acho importante elas ficarem juntas, porque isso manda um recado. Um recado de liberdade, de que esse sentimento não precisa ser punido, escondido nem tratado como erro. Fica a sensação muito clara de que, apesar de tudo, o sentimento venceu".
A disponibilização da última leva de episódios nessa última segunda-feira (23) marca o regresso da atriz para colocar um ponto final na turbulenta trajetória de Maria (Indira Nascimento), que transitou entre a maldade e o desequilíbrio mental por não aceitar sua inclinação por outra mulher.
A narrativa de Eulália e Maria simboliza a resistência de um afeto que sobreviveu à hostilidade externa. Bruna analisa que sua personagem é o espelho de Maria, mas focada no conflito entre o querer e a proibição. Desde o princípio, Eulália foi o gatilho de uma emoção profunda em Maria, vista como tabu sob o rigor clerical.
Sobre o processo criativo, Spínola relata: "Eu construí a Eulália entendendo que ela vive num lugar em que o desejo vira culpa muito rapidamente. Existe um cuidado, uma prudência, uma leitura constante do risco. Mas, ao mesmo tempo, ela tem uma clareza afetiva muito forte. Ela sustenta o que sente".
Um dos diálogos mais emblemáticos ocorre quando Maria rotula a relação como algo maligno. A atriz recorda a firmeza de Eulália nesse instante: "Quando a Maria interpreta esse amor como 'coisa do diabo', a Eulália devolve com uma frase que, para mim, define muito a personagem. Ela diz que o diabo desconhece o amor. Isso coloca a relação num outro lugar. Não é tentação; é sentimento, é humanidade."
Mesmo com as idas e vindas provocadas pela pressão social, a conexão permaneceu intacta. "Ela ama, acredita na pureza do que sente, mas precisa lidar com o peso do mundo em volta. Os avanços e recuos não negam o sentimento. Eles revelam o tamanho do conflito", explica Bruna.
Embora a trama seja de época, a artista enxerga paralelos contemporâneos sobre o controle do corpo e das vontades femininas. "Ela fala de estruturas que tentam controlar o corpo e o desejo feminino. Hoje, existe mais espaço para nomear e debater, mas ainda há culpa, julgamento e tentativas de enquadramento. Quando a Eulália diz que aquilo é um sentimento puro, ela está dizendo também que o amor não deveria ser tratado como crime ou doença".
O momento mais drástico, a tentativa de suicídio de Maria, é visto por Bruna como um grito contra o sufocamento moral, e não uma consequência do amor. "O que me mobilizou foi pensar que aquilo vem da falta de saída, do terror moral. Com a Indira, a gente trabalhou com muita parceria e escuta. São cenas que exigem verdade e sobriedade".
Ao fim, o reaparecimento de Eulália consolida a tese da obra: "O retorno dela vem como uma afirmação do que a novela sempre defendeu: que o que elas sentem é amor, e que esse amor merece existir".