
O Brasil registrou quase 900 mil ataques virtuais contra jornalistas em 2025, segundo dados divulgados pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert). O número revela uma escalada da hostilidade contra profissionais da imprensa no ambiente digital e reforça o cenário de desgaste da liberdade de expressão no país.
De acordo com o relatório, foram contabilizadas cerca de 2.465 agressões por dia, o que equivale a aproximadamente duas ofensas por minuto. Em comparação com 2024, o aumento foi de 35%.
O levantamento foi divulgado nesta terça-feira (7), no Dia do Jornalista, e integra o Relatório sobre Violações à Liberdade de Expressão, produzido com base em monitoramento digital.
Os dados mostram que o ambiente virtual segue como o principal foco de hostilidade contra jornalistas e veículos de comunicação. Em 2024, haviam sido registradas cerca de 704 mil publicações ofensivas, número que, à época, era o menor desde o início da série histórica monitorada pela entidade em parceria com a plataforma Bites.
Agora, a nova alta indica uma retomada da escalada de ataques, em um cenário marcado por polarização, radicalização do debate público e crescimento de campanhas digitais direcionadas à imprensa.
Entre os termos mais recorrentes usados nas agressões estão palavras como “lixo”, “podre”, “canalha”, “velha” e “golpista”, frequentemente associadas a jornalistas, emissoras e empresas de comunicação.
Além das agressões no ambiente digital, o relatório também aponta 66 casos de violência não letal contra a imprensa ao longo de 2025, atingindo ao menos 80 jornalistas e veículos de comunicação.
Embora o número represente queda em relação ao ano anterior, a frequência ainda preocupa. Na prática, os registros indicam que houve um episódio de violência contra profissionais da imprensa a cada cinco dias, em média.
Os dados reforçam que o problema não se restringe ao ambiente on-line e continua afetando diretamente o exercício da atividade jornalística em diferentes contextos.
Segundo o estudo, homens foram os principais alvos das agressões, e os profissionais ligados a emissoras de televisão concentraram parte expressiva dos ataques registrados.
O relatório também aponta que os principais autores das agressões identificadas foram políticos e ocupantes de cargos públicos, seguidos por torcedores e integrantes de grupos ligados ao futebol.
A presença de agentes públicos entre os principais ofensores acende alerta sobre o impacto institucional desse tipo de discurso e sobre o efeito que ataques vindos de figuras públicas podem ter na legitimação da violência contra jornalistas.
Outro ponto de destaque do levantamento é o uso crescente de inteligência artificial (IA) para ampliar campanhas de desinformação e reforçar narrativas negativas contra a imprensa.
Segundo a Abert, conteúdos manipulados ou impulsionados por ferramentas de IA vêm sendo utilizados para espalhar desconfiança sobre veículos de comunicação, questionar a credibilidade do jornalismo profissional e reforçar acusações de suposto viés ideológico.
A entidade avalia que esse novo cenário torna ainda mais complexa a defesa da liberdade de imprensa e da circulação de informação confiável no ambiente digital.
Em resposta ao avanço das agressões, o governo federal anunciou a criação de um protocolo nacional de investigação de crimes contra jornalistas e comunicadores sociais.
A medida foi formalizada por meio de portaria assinada nesta terça-feira pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. O objetivo é estabelecer diretrizes para a atuação dos órgãos de segurança pública na prevenção, apuração e responsabilização de crimes cometidos em razão da atividade jornalística.
O texto também prevê maior organização dos procedimentos de investigação, ampliação da cooperação entre instituições e mecanismos de proteção às vítimas.
Os números divulgados pela Abert reforçam um cenário de preocupação para entidades de imprensa, organizações de direitos humanos e profissionais da comunicação.
Mais do que estatísticas, os dados revelam um ambiente cada vez mais hostil ao trabalho jornalístico, em um momento em que a circulação de informação confiável se torna ainda mais central no debate público.
O avanço das agressões digitais, somado à persistência de intimidações presenciais e ao uso de novas tecnologias para desinformar, amplia o desafio de proteger não apenas jornalistas, mas o próprio direito da sociedade à informação.