
Entre o segundo semestre de 2024 e outubro de 2025, a estrutura administrativa do Exército Brasileiro efetuou a transferência de R$ 39 milhões para o Banco Master. O montante refere-se às mensalidades de empréstimos consignados que militares haviam firmado com a entidade bancária gerida por Daniel Vorcaro.
A informação, trazida a público pela Folha de S.Paulo e ratificada pelo portal Metrópoles, fundamenta-se em um dossiê do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) entregue à CPI do Crime Organizado.
O relatório técnico detalha que as cifras eram inicialmente depositadas em uma conta do Master hospedada no Itaú. Contudo, os valores permaneciam ali por períodos curtíssimos antes de serem pulverizados em outras contas internas do próprio Banco Master.
Essa engenharia financeira, segundo os analistas do Coaf, compromete a rastreabilidade do destino final dos recursos, afirmando que tal dinâmica inviabiliza “identificar se eventualmente existem outros beneficiários de valores”.
O órgão regulador também assinalou uma atípica “concentração de recursos ordenados pelo Comando do Exército”. O documento justifica o alerta da seguinte forma:
“Considerando o recebimento de créditos com o imediato débito dos valores, bem como concentração de recursos enviados para mesma titularidade, fazendo com que não seja possível, através desta análise, identificar se eventualmente existem outros beneficiários de valores, temos situações previstas para comunicação objetiva”.
Em resposta oficial, o Exército esclareceu que as vultosas somas “tratam-se, exclusivamente, de repasses de valores particulares decorrentes de consignações em folha de pagamento”.
A instituição militar informou que o banco obteve o credenciamento em fevereiro de 2023 após trâmites legais, mas a parceria foi cortada abruptamente em novembro de 2025, logo após a intervenção do Banco Central na financeira.
“O Comando do Exército realizou a rescisão unilateral do contrato de credenciamento. Desde então, o referido banco está impedido de formalizar novos contratos de consignação”, destacou o comunicado.
A Força reiterou que sua função foi meramente operacional (desconto e repasse) e negou prejuízos públicos: “Cabe destacar que não houve qualquer perda patrimonial para o Erário ou para o Exército Brasileiro, pois os valores envolvidos são oriundos de rendimentos particulares dos militares para o pagamento de dívidas privadas”.
A trajetória da instituição foi marcada por uma expansão agressiva que culminou em colapso:
2018–2023: O antigo Banco Máxima torna-se Master e Daniel Vorcaro assume as rédeas, focando em crescimento rápido.
Início de 2024: Expansão via aquisições (Voiter, LetsBank e Will). O BC começa a exigir planos de garantia de liquidez.
Julho–Setembro de 2024: O banco falha em captar R$ 15 bilhões (consegue apenas R$ 2 bi). O BC detecta carência de capital e vulnerabilidades na gestão de riscos.
Fevereiro de 2025: A instituição deixa de honrar os recolhimentos compulsórios obrigatórios.
Março–Setembro de 2025: Tentativas frustradas de venda ao BRB e busca por socorro no Fundo Garante de Crédito (FGC).
Novembro de 2025: O Banco Central decreta oficialmente a liquidação extrajudicial.
O crédito consignado foi o motor e, simultaneamente, o calcanhar de Aquiles do Master. Em janeiro de 2025, Vorcaro alegava possuir 5 milhões de clientes ativos apenas nesse segmento, movimentando mais de R$ 3,5 bilhões em um único ano.
Apesar dos números robustos, a insatisfação era proporcional: entre 2020 e 2026, o banco acumulou cerca de 15 mil reclamações em canais federais e outras 9 mil queixas nos Procons de todo o país, evidenciando problemas sistêmicos no atendimento aos tomadores de crédito.