
O monitoramento do Banco Central (BC) detinha ciência prévia de que o Banco Master, sob o comando de Daniel Vorcaro, apresentava debilidade monetária e falhas gerenciais, contudo, as autoridades não conseguiram implementar sanções eficazes para frear sua expansão acelerada. Entre os anos de 2021 e 2024, o Departamento de Supervisão (Desup) expediu no mínimo 25 notificações à entidade, ordenando ajustes em lacunas de capital e apontando falhas em balanços de crédito, precatórios e ativos geridos pela Reag.
Mesmo sob pressão de liquidez, Vorcaro intensificou sua estratégia em 2024, saltando de R$ 30 bilhões para R$ 60 bilhões em recursos protegidos pelo Fundo Garantidor de Créditos. O BC hesitou em agir energicamente em três momentos cruciais daquele ano: ao notar indicadores de caixa frágeis em março, ao estimar um rombo de R$ 885 milhões em maio e ao aceitar um cronograma de saneamento proposto pelo próprio banqueiro em novembro.
Naquele período, a cúpula da autarquia, liderada por Roberto Campos Neto, já possuía total clareza sobre os riscos envolvidos, tendo inclusive limitado investimentos em precatórios e captações via FGC no ano anterior. Para desvendar essa inércia, o jornal Valor analisou documentos citados pelo TCU e consultou especialistas sobre as travas legais que impediram um rigor maior na fiscalização.
Os inspetores do BC relataram exaustão e dificuldades técnicas para decifrar a engenharia financeira atípica da instituição. Além disso, apura-se se Belline Santana e Paulo Souza, ex-diretores do Desup, teriam sido influenciados por Vorcaro para mitigar as ações de controle.
A reviravolta nas apurações ocorreu em 2025, quando novos diretores buscaram apoio de setores de inteligência de dados para mapear desvios de verbas ocultos em fundos de investimento. Atualmente, o BC mantém sob sigilo de oito anos as provas que levaram ao fechamento do banco, embora relatórios do TCU já exponham o histórico de negligência desde 2021.
2019-2020: O BC já demonstrava receio com a reputação de Vorcaro ao autorizar a compra do antigo Banco Máxima. Em sua primeira inspeção, o banco recebeu um “rating” insatisfatório por apresentar “fragilidades relevantes na estrutura de governança e na gestão de riscos”.
2021-2022: Exigiu-se uma reserva de capital extra para mitigar riscos aos correntistas. Novas auditorias exigiram a revisão de notas de crédito para impedir a “maquiagem da inadimplência” e expuseram falhas em aportes via fundos.
2023: A situação se agravou com a descoberta de empréstimos irregulares a partes vinculadas e o uso de escrituras sigilosas para esconder dívidas. Em resposta, Campos Neto aprovou normas mais rígidas para operações com precatórios e impôs tetos de captação, que haviam crescido dez vezes em quatro anos.
Fraudes eram de difícil identificação porque o Master operava com operações não padronizadas, em estruturas complexas. Analistas que acompanharam o caso ressaltam que, embora o banco crescesse fora da curva, o papel do regulador é limitado: “Apesar de ser um caso de crescimento rápido, não foi o único” e “O BC não tem mandato para frear crescimento, e sim de supervisionar e regular o crescimento”.