
O atual comandante do Palácio dos Bandeirantes, Tarcísio de Freitas (Republicanos), viu suas possibilidades de liquidar a disputa estadual logo na primeira etapa crescerem significativamente. Dono de uma distância confortável sobre o ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), nas sondagens vigentes, o candidato à reeleição se beneficia diretamente do recuo de duas forças políticas que compartilham de seu espectro ideológico, movimento que pode inviabilizar o avanço da concorrência para uma nova rodada de votação.
O movimento começou a se desenhar após o ex-prefeito de Santo André, Paulo Serra (PSDB), mudar de planos. Embora tivesse garantido na quarta-feira (17) que manteria sua postulação, o tucano usou o domingo (21) para anunciar que saía da corrida estadual para mirar uma cadeira na Câmara dos Deputados.
O anúncio de Serra aconteceu apenas 24 horas depois de Kim Kataguiri (Missão) também confirmar sua retirada da disputa pelo governo paulista. Diante dos diagnósticos das últimas pesquisas, esse duplo recuo traz um panorama muito mais favorável para Tarcísio do que para Haddad, escolhido pelos petistas para tentar destronar o governador.
Um diagnóstico recente do instituto Real Time Big Data, publicado no dia 16, ajuda a dimensionar o impacto dessas desistências. Na simulação onde o nome de Kataguiri não consta, Tarcísio lidera isolado com 49% das intenções de voto. O petista Fernando Haddad aparece na segunda posição com 33%, seguido por Paulo Serra, que pontuava 10%. Os votos brancos e nulos totalizam 4%, mesmo índice registrado pelos eleitores que não souberam responder. Vale lembrar que, pela legislação brasileira, o candidato liquida a eleição no primeiro turno ao obter mais da metade dos votos válidos.
Na sondagem que considerava a participação de todas as forças políticas, o cenário era o seguinte:
Tarcísio de Freitas: 46%
Fernando Haddad: 33%
Kim Kataguiri: 8%
Paulo Serra: 6%
Brancos e nulos: 4% | Não sabem/Não responderam: 3%
A amostragem não calculou uma hipótese mantendo Kataguiri e retirando Serra. Contudo, devido ao teto da margem de flutuação de duas unidades percentuais, o atual governador possui chances reais de consolidar o triunfo na fase inicial em ambas as situações.
O estudo ouviu 2.000 cidadãos espalhados pelo território paulista entre 13 e 15 de junho, operando com confiabilidade de 95%. O próprio instituto financiou a pesquisa, registrada na corte eleitoral sob a identificação SP-09734/2026. Projeções de uma eventual segunda fase não foram divulgadas pela empresa.
Buscando assegurar matematicamente o encerramento do pleito em outubro, Tarcísio agora tenta costurar a adesão formal dos antigos adversários, tratativas que ainda não se concretizaram até o início desta semana.
Em sua nota de renúncia, Paulo Serra justificou que a mudança de rumo ocorreu após reflexões sobre como sua atuação poderia ser mais útil para a população.
"Anuncio oficialmente minha pré-candidatura a deputado federal. Quero levar para o Congresso Nacional aquilo que aprendemos e colocamos em prática ao longo dos últimos anos: planejamento, responsabilidade fiscal, inovação, eficiência administrativa e, acima de tudo, compromisso com as pessoas”, diz.
Para o especialista em política Samuel Oliveira, em entrevista à Gazeta do Povo, a ausência dessas candidaturas altera profundamente a dinâmica do jogo:
"Kataguiri e Paulo Serra poderiam tirar votos de Tarcísio e forçar um segundo turno”, analisa o cientista político Samuel Oliveira à Gazeta do Povo. "Kim fala com uma direita liberal, jovem, digital, crítica ao PT, mas também menos disposta a aderir automaticamente ao governador”, avalia.
Sob a ótica do comitê petista, a permanência de uma terceira via à direita era vista com bons olhos para forçar uma nova votação, conforme aponta Oliveira.
"Eles poderiam ajudar a levar a eleição ao segundo turno, mas isso não significaria de qualquer forma transferência automática para o PT”, diz à Gazeta.
O analista pondera que esse eleitorado tem uma forte identidade conservadora:
"Parte desse voto é anti-Haddad e anti-PT. Ou seja, eles ajudariam Haddad a prolongar o jogo, mas não necessariamente resolveriam o jogo para ele”, acrescenta o cientista político ao veículo.
Oliveira conclui apontando que o desfecho paulista reverberará fortemente no cenário federal:
"O impacto nacional é evidente”, afirma Oliveira. "Se Tarcísio vence no primeiro turno, sai livre para ser cabo eleitoral da direita no plano nacional, articular prefeitos, fortalecer palanques e atuar como fiador político de uma candidatura presidencial. Por isso, a pergunta não era se Kim e Paulo Serra mexeriam tanto assim no tabuleiro em outubro, a pergunta era se eles mexeriam o suficiente até outubro".