Erika Hilton denuncia ter candidatura preterida pelo PSOL no fundo eleitoral do partido

De acordo com os questionamentos, a cúpula partidária estaria priorizando o líder da federação PSOL-Rede, Juliano Medeiros, além de recém-filiados como Manuela d’Ávila

24/06/2026 às 12h49
Por: Marcela Mattiolli Colaboração para Felipeh Campos
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Reprodução: Jessica Marschner / Câmara dos Deputados
Reprodução: Jessica Marschner / Câmara dos Deputados

Um grupo composto pela deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), pelo parlamentar estadual paulista Carlos Giannazi (PSOL), pela deputada fluminense, Renata Souza, e pelo vereador do Rio de Janeiro, Rick Azevedo (PSOL), manifestou-se publicamente na terça-feira (23). Eles protestam sobre suas candidaturas terem sido preteridas no repasse do fundo disponível ao PSOL para disputar as eleições deste ano.

Os quatro representantes alegam falta de equidade na partilha do fundo eleitoral. De acordo com os questionamentos, a cúpula partidária estaria priorizando o líder da federação PSOL-Rede, Juliano Medeiros, além de recém-filiados como Manuela d’Ávila. Os reclamantes sustentam que as iniciativas voltadas ao impulsionamento de candidaturas de mulheres, negros e cidadãos com deficiência estão sendo “desmontado” sob a gestão da presidente da legenda, Paula Coradi. Esse descontentamento também ecoava em conversas reservadas de outros filiados, mas o núcleo liderado por Hilton optou por expor a insatisfação.

Procurada pelo Estadão, a coordenação nacional da sigla assegurou que a “distribuição de recursos eleitorais está em conformidade” com as metas de expandir o número de deputados, obter assentos no Senado e garantir a recondução do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “O PSOL tem como missão fazer a política brasileira se parecer mais com o povo. Por isso, nossa bancada é a mais diversa do Congresso Nacional. Em 2026, vamos novamente transformar esse compromisso em representação concreta”, rebateu o diretório ao Estadão.

Declarações dos Parlamentares

A deputada federal Erika Hilton externou duras críticas à estratégia do partido em suas redes sociais:

“É um absurdo que a direção partidária feche os olhos para essa realidade. Hoje, Juliano Medeiros, em sua primeira candidatura, teria exatamente a mesma prioridade que eu. Manuela D’Ávila, que acabou de chegar ao partido, tem previsão de receber mais que o dobro”, reclamou Hilton.

A congressista argumentou que tal planejamento evidencia “o privilégio branco e cis sobrepondo tudo: os acordos feitos conosco, cálculos eleitorais sérios”. No mesmo desabafo, Hilton disparou contra as correntes internas da sigla: “A inteligência política passou longe. É uma tentativa de asfixiar quem está na linha de frente em detrimento de um perfil de pré-candidaturas bem específico, de grupos que só pensam em si mesmos e estão, mais uma vez, arriscando a viabilidade do PSOL”.

Rick Azevedo, aliado político de Hilton e principal rosto do movimento pelo término da jornada de trabalho 6x1 dentro da legenda, endossou as palavras da colega e exigiu clareza contábil da cúpula psolista:

“É imperativo questionar os critérios de distribuição de recursos eleitorais, pois toda direção tem o direito de fazer escolhas, mas também o dever de assumi-las publicamente”, disse.

Por sua vez, Renata Souza asseverou que a agremiação incorre nos mesmos vícios de “legendas que instrumentalizam a pauta de gênero e raça para, no fim, fortalecer os homens brancos no poder”. A deputada fluminense complementou fazendo um apelo à identidade histórica do partido:

“O partido de Marielle Franco tem que ser exemplo! Não basta se dizer diverso e plural, é preciso ter uma prática política coerente e responsável com a representação popular. ⁠Que essa decisão seja reconsiderada, para que o PSOL não caia na vala comum dos partidos brasileiros, que nunca quiseram que nossa gente acessasse os espaços de poder", disse.

Já Carlos Giannazi orientou que a direção da legenda revise as planilhas de fomento. “O PSOL enfrentará, neste ano, não apenas os adversários políticos e a extrema direita, mas também o desafio da cláusula de barreira. Diante desse cenário, é fundamental ter responsabilidade, planejamento e capacidade tática”, alertou.

Riscos da Cláusula de Barreira e Divergências Internas

O descontentamento com o rateio das verbas não se restringe aos quatro signatários do protesto, embora outros aliados tenham optado por restringir o debate aos fóruns privados da agremiação.

Sob anonimato, integrantes da legenda relataram que o PSOL apresenta falhas de estruturação para o pleito devido a embates entre suas correntes ideológicas e disputas territoriais, como o distanciamento entre os diretórios de São Paulo e do Rio de Janeiro, o que emperra a construção de consensos. O principal receio desse bloco reside nas exigências da cláusula de desempenho. Trata-se do mecanismo eleitoral que impõe patamares mínimos de votação para assegurar o recebimento do Fundo Partidário e o direito ao uso do horário de rádio e TV.

Esta não é a primeira divergência que o grupo de Erika traz a público. No final de fevereiro, uma ala liderada pela deputada e pelo atual chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, defendeu abertamente uma fusão federativa com o PT para blindar a sobrevivência institucional do partido frente às regras de barreira.

Em um texto assinado no jornal Folha de S.Paulo no início de março, os aliados de Boulos sustentaram que, com o fortalecimento das forças de direita, “não existe espaço para um projeto de simples demarcação ou para gastar nossas energias em disputas internas menores”. A tese de Boulos, contudo, acabou vencida no partido. No pleito de 2022, operando em federação com a Rede Sustentabilidade, a aliança elegeu 14 deputados federais, somando mais uma cadeira após uma revisão de apuração no Amapá. Atualmente, a bancada conta com 11 cadeiras do PSOL e quatro da Rede.

No pleito de 2026, para superar o sarrafo legal, as agremiações partidárias necessitam angariar no mínimo 2,5% dos votos válidos em todo o país, distribuídos por pelo menos nove estados (com piso de 1,5% em cada um deles), ou, alternativamente, garantir a eleição de 13 deputados federais espalhados por nove unidades da federação.

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