
As investidas verbalizadas pelo mandatário argentino Javier Milei durante a convenção do PL no último sábado (25) atingiram diretamente seu equivalente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Devido aos ataques nos quais rotulou o petista de “ladrão” e “presidiário”, além de apelidar o ministro Alexandre de Moraes de “lixo careca”, a administração federal acionou a chancelaria para manifestar repúdio formal ao representante diplomático da Argentina em território nacional. As informações são da Gazeta do Povo.
Através de nota oficial, o Itamaraty reprovou veementemente os “impropérios” disparados pelo chefe da Casa Rosada durante sua passagem por São Paulo. O pano de fundo do atrito diplomaticamente velado reside no fato de um líder estrangeiro ter interferido abertamente na corrida eleitoral brasileira contra um adversário de Lula de olho no pleito de outubro de 2026.
Curiosamente, o próprio histórico do chefe de Estado brasileiro registra episódios em que ele próprio se envolveu abertamente em disputas presidenciais de outras nações, respaldando correntes progressistas na América Latina e nos Estados Unidos, por vezes, sem o êxito esperado.
No mês de fevereiro de 2024, o líder do Executivo nacional declarou publicamente sua torcida pela recondução do democrata Joe Biden à Casa Blanca, avaliando que a permanência do político asseguraria “a sobrevivência do regime democrático”.
“Eu espero que o Biden ganhe as eleições. Eu espero que o povo possa votar em alguém que tenha mais afinidade. Eu tenho visto o Biden em porta de fábrica. O discurso do Biden desde o começo até agora é em defesa do mundo do trabalho”, afirmou o chefe do Executivo brasileiro, em uma entrevista à RedeTV.
Naquele ano, o republicano Donald Trump acabou reconquistado o poder após superar nas urnas a vice-presidente Kamala Harris, visto que Biden abandonou a disputa em razão de seu debilitado quadro clínico.
Durante ato público com agrupamentos sociais em maio de 2022, o petista tentou inicialmente manter uma postura neutra ao ponderar que “não gosta de dar palpite em política de outro país”. Contudo, acabou cedendo ao impulso e puxou coro de incentivo ao candidato colombiano.
“Nós, trabalhadores e trabalhadores brasileiros, estudantes, representantes de todos os movimentos sociais do Brasil... queremos pedir ao povo trabalhador da Colômbia, aos estudantes da Colômbia, aos movimentos sociais da Colômbia, a todos aqueles que defendem a democracia que no dia da eleição colombiana, no próximo domingo, o povo pudesse votar no companheiro Gustavo Petro para presidente da Colômbia”, comandou o presidente brasileiro.
Após chegar ao poder, Petro enfrentou forte erosão de sua popularidade perante o eleitorado colombiano, culminando na derrota da esquerda nas urnas e na vitória de Abelardo de La Espriella em 2026.
Repetindo o gesto de 2003 em favor de Tabaré Vázquez, Lula engajou-se em 2009 na campanha do ex-guerrilheiro José “Pepe” Mujica rumo à presidência uruguaia, utilizando emissários políticos para endossar o nome governista.
Em tratativa direta com o postulante vizinho, o ex-ministro Olívio Dutra transmitiu a mensagem do líder petista: “Lula tem a certeza de que em um segundo governo da esquerda uruguaia, comandada por Mujica, a relação entre nossos povos será mais produtiva e rica, especialmente na área do Mercosul. Mujica é uma figura emblemática, carismática, capaz de trabalhar na diversidade e pluralidade de ideias e construir consenso”.
Em setembro de 2012, centrais sindicais e correntes partidárias esquerdistas articularam uma mobilização de apoio à renovação de mandato do ditador venezuelano Hugo Chávez. Para a ocasião, o petista gravou um depoimento propagandístico dirigido à equipe do publicitário João Santana.
“Chávez, a tua vitória será a nossa vitória”, exclamou o político brasileiro. Anos antes, em 2009, quando Chávez propôs via referendo a perpetuação ilimitada no poder executivo, o atual presidente brasileiro defendeu a medida argumentando que “Chávez é jovem e aguenta um novo mandato” e que o modelo dependia “da cultura e da vontade de cada povo”.
Com o falecimento de Chávez em março de 2013, o titular do Palácio do Planalto apressou-se em produzir novo vídeo voltado à disputa sucessória, prestando tributo ao falecido mandatário e endossando abertamente Nicolás Maduro.
Tentando atenuar a ingerência externa, Lula argumentou que o depoimento não configurava intromissão nos assuntos internos, mas sim um voto “em nome do futuro do país” e “em nome do Mercosul”.
O desfecho da mensagem veio em tom enfático: “Maduro presidente é a Venezuela que Chávez sonhou”, cravou o petista. O registro foi veiculado em Caracas e amplamente explorado pela estratégia de marketing do candidato governista.