
O chefe do Executivo nacional, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), desdenhou com ironia das provocações proferidas pelo mandatário argentino, Javier Milei, ao longo de sua estada em solo brasileiro. Ao ser indagado sobre as investidas do governante vizinho, o petista rebateu: “Eu? Quem é esse cara?”. A resposta lacônica ocorreu no Palácio do Itamaraty, momentos antes da recepção oficial ao presidente sul-coreano, Lee Jae Myung.
O líder argentino desembarcou no país para prestigiar o encontro do PL que sacramentou a indicação de Flávio Bolsonaro à disputa pelo Planalto. Do palco do comício, o representante da Casa Rosada disparou investidas contra o Executivo brasileiro, alegando que a nação enfrenta um cenário de “perseguição política”, além de alvejar o magistrado do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, e respaldar abertamente a postulação do primogênito de Jair Bolsonaro.
Em sua fala, Milei argumentou que somente o senador “pode parar Lula e trazer uma verdadeira mudança para todos os brasileiros”. Ele sustentou ainda que o Brasil caminha “a caminho da crise da dívida” e pausou sua fala repetidas vezes para instigar a plateia a bradar slogans como “Lula ladrão”.
O presidente vizinho criticou duramente Alexandre de Moraes por ter indeferido o pedido de visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre sanção sob monitoramento residencial após sentença por participação em tentativa de golpe de Estado. Dirigindo-se ao magistrado, o argentino usou o termo “lixo careca”.
“O lixo careca não me permitiu visitar meu amigo injustamente preso, embora eu saiba que Lula recebia constantemente líderes estrangeiros enquanto estava na cadeia, inclusive aquele ex-presidente argentino desastroso, Alberto Fernández”, atacou Milei.
As hostilidades deflagraram pronta resposta da diplomacia nacional. A Secretaria de Estado das Relações Exteriores solicitou o regresso temporário do embaixador brasileiro radicado em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas e intimou o representante diplomático da Argentina no país, Daniel Raimondi, a prestar esclarecimentos no domingo (26).
Conforme nota emitida pelo Itamaraty, o ministro Mauro Vieira externou a “repulsa do governo brasileiro aos impropérios emitidos pelo presidente Javier Milei durante a sua visita privada a São Paulo”.
O comunicado oficial destacou a gravidade do ocorrido: “Não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, enfeixe agressões e ofensas ao chefe de Estado, às instituições democráticas, inclusive ao Poder Judiciário, e ao povo brasileiro. É especialmente lamentável que esse episódio infamante envolva o presidente de um país com que o Brasil mantém 203 anos de amizade e cooperação e que tem, no Brasil, o seu principal sócio comercial”.