Milei traz apoio externo e críticas ao STF e Lula à campanha de Flávio Bolsonaro

Ele repudiou o modelo socialista, celebrou o declínio da esquerda no continente e projetou uma vitória da “onda azul” em solo nacional

28/07/2026 às 14h00
Por: Marcela Mattiolli Colaboração para Felipeh Campos Fonte: Gazeta do Povo
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Reprodução: Nelson Almeida/AFP
Reprodução: Nelson Almeida/AFP

A vibrante adesão do líder argentino, Javier Milei, ao encontro do Partido Liberal (PL) no sábado (25) alçou o lançamento da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) ao Planalto a um patamar global, servindo de catalisador para a militância conservadora. A contundente intervenção de Milei, que durou cerca de meia hora, dominou a pauta jornalística, inflamou a base direitista e desencadeou um atrito diplomático entre as nações. As informações são da Gazeta do Povo.

Ele repudiou o modelo socialista, celebrou o declínio da esquerda no continente e projetou uma vitória da “onda azul” em solo nacional. Na ocasião, referiu-se ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como “presidiário” e chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, de “lixo careca”, revoltado pelo indeferimento de um encontro presencial com Jair Bolsonaro (PL).

Aliados do postulante do PL avaliaram que a presença do mandatário estrangeiro supriu uma demanda da ala conservadora, externando reparos ao governo com uma ousadia que os políticos locais evitam por cautela diante da legislação e do patrulhamento jurídico. De acordo com analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, a participação de Milei impulsiona a vitrine internacional da campanha de Flávio, amplia a exposição midiática externa e energiza os correligionários. Por outro lado, concede munição para que os opositores acusem a chapa de aceitar ingerência estrangeira na corrida eleitoral.

Especialistas assinalam que essa conexão ostensiva entre expoentes da direita internacional pode precipitar controvérsias adicionais junto às instituições brasileiras, com foco em potenciais violações sobre desinformação, financiamento ilícito e conduta de figuras estrangeiras em atos políticos locais.

Para o cientista político Ismael Almeida, o suporte de Milei rende vantagem tática relevante a Flávio ao projetar a postulação para o cenário global e oferecer ressonância externa aos ataques dirigidos a Lula e ao Judiciário. "Não duvido que o PT use esse episódio para tentar ganhar a eleição com judicialização", projeta em declaração à Gazeta do Povo.

O analista pontua que a atitude do chefe da Casa Rosada consolida o antilulismo e enquadra o pleito brasileiro em uma corrente ampla de avanço conservador no Ocidente. Almeida complementa que a intervenção fornece vasto insumo para engajamento em redes sociais e reforça laços ideológicos transnacionais.

Na visão de Marcus Deois, diretor da consultoria Ética, o endosso do argentino valida o compromisso liberal da chapa. “É um gesto estratégico para aproximá-lo do mercado financeiro. Em termos práticos, o candidato do PL sinaliza a intenção de conduzir a economia alinhada aos padrões de Paulo Guedes”, avalia ao veículo.

Crise diplomática e desdobramentos

A reação do Executivo nacional foi contundente. A diplomacia brasileira qualificou os discursos como “inadmissíveis”, convocou o embaixador argentino em Brasília para dar explicações e solicitou o regresso do representante brasileiro em Buenos Aires para consultas, uma medida severa da praxe diplomática antes de um rompimento formal. O Itamaraty sublinhou a inexistência de histórico de ofensas proferidas por mandatários estrangeiros dentro do solo nacional contra o presidente e as instituições republicanas, ressaltando a relevância dos laços comerciais entre os países.

O Judiciário também se posicionou. O presidente da Suprema Corte, ministro Edson Fachin, rechaçou as agressões a Moraes, classificando-as como desrespeitosas. Inabalável, Milei reiterou a postura em entrevistas a veículos argentinos no dia seguinte.

O chefe argentino argumentou que Lula atuou contra ele nas eleições de 2023, reforçando a sólida aliança que mantém com o clã Bolsonaro, fruto de frequentes gestos mútuos de apoio político.

Internacionalização como vetor estratégico

O projeto eleitoral do PL planeja intensificar a vitrine de conexões internacionais. Além de Milei, o evento exibiu acenos do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e aguarda acenos vindos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A estratégia passa por equiparar a conjuntura do Brasil à guinada à direita vivenciada por diversos países sul-americanos, promovendo pautas de segurança pública, alinhamento ocidental e liberalismo econômico.

Em contraponto, a base governista no Congresso já articula representações judiciais para apurar a conduta de Milei e a legalidade da exibição de um vídeo manipulado por inteligência artificial simulando a figura de Jair Bolsonaro durante o ato.

Polarização em escala global

O docente de Relações Internacionais da USP, Daniel Afonso Silva, entende que os episódios refletem a atuação de uma rede global informal de viés conservador e ultraliberal, gerada a partir da ascensão original de Trump. “Embora sem uma estrutura formal, esse campo mantém interlocução entre personagens como Trump, Javier Milei e a família Bolsonaro, alimentando reações antilulistas e antipetistas dentro e fora do Brasil”, analisa à Gazeta do Povo.

O docente ressalta que o veto à visita de Milei a Bolsonaro ultrapassou o bom senso diante da condição de saúde do ex-mandatário. Ele rememora que o próprio Lula, quando encarcerado, recebia diariamente comitivas e autoridades estrangeiras, e, no exercício do mandato, prestou solidariedade pública à ex-presidente argentina Cristina Kirchner. Por fim, o acadêmico pondera que a solidariedade de Milei acarreta dividendos políticos, mas não deve gerar desdobramentos diplomáticos permanentes.

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