
Apontado como a principal liderança da facção Comando Vermelho, Márcio dos Santos Nepomuceno, conhecido como Marcinho VP, teve acesso dentro da cadeia ao esboço do roteiro de uma produção cinematográfica baseada em um de seus livros. O texto foi entregue no Presídio Federal de Campo Grande em formato impresso, somando apenas duas folhas de papel para cumprir o rígido regulamento da instituição de alta segurança, que veda qualquer dispositivo tecnológico.
Segundo informações do portal Metrópoles, a liberação do documento aos advogados contou com a permissão prévia da chefia do estabelecimento penal por não apresentar conteúdos confidenciais ou de risco, abrindo margem somente para relatórios adicionais sobre a rotina do custodiado na rede penitenciária federal.
Embora o nome dos cineastas e da produtora à frente da iniciativa permaneçam em segredo, tudo indica que a obra cinematográfica adaptará a publicação “Preso de Guerra: Um Romance que Resistiu à Ditadura e à Dor do Cárcere”. O livro é de autoria do próprio detento, escrito durante seus 30 anos de reclusão e comercializado até o momento. No enredo, o autor constrói uma história ficcional focada na trajetória de João Grandão, um fugitivo da Justiça que encara cerca de três décadas de detenção.
A narrativa mescla um romance com passagens marcadas pelo drama da perda de liberdade, atos de brutalidade, suplicio e luto. Ao mesmo tempo, o escrito estabelece um paralelo direto entre o funcionamento dos presídios atuais e a estrutura de exceção instaurada no território nacional ao longo do regime militar, dando ênfase aos desdobramentos decorrentes do Ato Institucional nº 5 (AI-5).
O volume retrata ainda a visão do apenado acerca de abusos contrários aos direitos fundamentais, lacunas na aplicação da lei de execução penal e os desdobramentos da privação extrema no dia a dia dos prisioneiros. Ao relacionar esse panorama com o cenário de mais de 700 mil indivíduos privados de liberdade no Brasil, a produção busca expor os dilemas do universo prisional pelo prisma de quem cumpre pena há três décadas.