
A polêmica veio à tona quando o Diretor de Gestão de Pessoas da Record, Márcio Santos, foi formalmente acusado pelo jornalista, Elian Matte, por conduta imprópria e assédio sexual corporativo. O registro policial ocorreu em São Paulo em 14 de novembro de 2023. O profissional de imprensa, encarregado dos roteiros da atração “Câmera Record”, conduzida por Roberto Cabrini, relatou que as abordagens começaram por meio de solicitações de Santos para que comparecesse ao seu gabinete reservado.
De acordo com a revista Piauí, no boletim de ocorrência há descrições feitas por Matte de como os pedidos insistentes feitos pelo diretor aconteciam. Após receber três chamados para ir até a sala, sendo o último para um conversa mais pessoal, a interação entre os dois migrou para o WhatsApp. A partir daí, Santos passou a enviar mensagens supostamente com o teor sexual.
O colaborador ressaltou que mantinha os contatos virtuais motivado pelo receio da perda do cargo. “São pedidos insistentes para sair e, apesar das minhas negativas, continuou com conversas em que pergunta o tamanho do meu órgão genital, em que diz que tem ciúme doentio por mim e que precisa de ajuda médica”, sustentou ele em trecho do termo obtido pelo portal Notícias da TV.
“Eu até cedi por um período, tinha medo de cortá-lo e ser dispensado. Mas tudo piorou quando começou a usar a estrutura da TV para me monitorar”, afirmou o roteirista. Conforme seu relato, o gestor passou a encaminhar mídias do circuito fechado de segurança, recursos restritos à alta cúpula da empresa, para demonstrar que o observava no trabalho.
"Em uma das vezes, o diretor aproximou a câmera do volume da calça do jornalista e questionou sobre o tamanho órgão genital do funcionário. Fez isso diversas vezes. Reclamou que eu não retribuía pornografias, reclamou que eu só o enrolava, pois não topava sair com ele”, declarou. Em uma das mensagens, Santos chegou a pedir para que Matte não chegasse perto do carro dele no estacionamento, pois o sequestraria. Em outros momentos, chegou a a mandar dois presentes, um tênis e um perfume, colocados em cima da mesa do jornalista na redação.
A constante pressão gerou complicações severas à saúde do jornalista. Matte apresentou sintomas acentuados de estresse corporativo e procurou a assistência de saúde interna da própria emissora. O quadro foi diagnosticado pela médica do local, mas a profissional acabou alterando a documentação pouco depois sob receio de sanções profissionais.
“Ela me afastou, me diagnosticou com burnout. Uma semana depois, me enviou várias mensagens dizendo que foi ameaçada pela direção e precisava me enviar um novo atestado modificado, pois era proibido na emissora o diagnóstico de burnout. Estou com os atestados alterados. Houve quebra do sigilo médico, alguém do RH ameaçou a médica”, relatou ele."
Antes de procurar as autoridades policiais, o roteirista buscou amparo na própria estrutura do canal:
Tentativas de socorro interno: Reportou a situação a Antonio Guerreiro (vice-presidente do setor jornalístico). Em seguida, participou de uma conversa com Clovis Rabelo (diretor de estratégias e conteúdo) e Fabiano de Souza (gerente de produção executiva), ambos profissionais próximos de Santos, o que o deixou constrangido.
Sem resposta e orientação final: O comunicador encaminhou um e-mail com o relato a Luiz Claudio da Silva Costa, presidente da emissora, mas não obteve qualquer parecer. Por fim, ao recorrer a Edinomar Galter, responsável pelo departamento jurídico, recebeu a orientação de procurar a delegacia para formalizar o caso.
Ao ser interpelado pela equipe da revista Piauí, Santos negou integralmente os apontamentos, classificando as denúncias como infundadas e defendendo que as interações se tratavam de "brincadeiras". Sobre um dos arquivos de imagem anexados ao procedimento, afirmou que o registro foi retirado de contexto.
O executivo desmereceu a gravidade do monitoramento, justificando o ato como algo pontual e que o próprio roteirista também o fotografava com o celular. A reportagem ressaltou que a atmosfera nos corredores do canal era marcada por receio e omissão.
Além do processo movido por Matte, Márcio Santos passou a ser apontado por supostamente tentar abafar um caso paralelo envolvendo a repórter Rhiza Castro. O denunciado principal nessa ocorrência seria Thiago Feitosa (comandante da Record News), acusado de enviar mimos, fazer comentários sobre a aparência da jornalista, ditar regras de vestuário e mudar seu posto de trabalho.
Em uma reunião no final de 2022, Santos orientou Rhiza a não acionar as autoridades policiais para não expor a empresa. A repórter pediu desligamento da emissora e ingressou com interpelação judicial por assédio moral e sexual. A disputa resultou no pagamento de R$ 26 mil por parte de Feitosa, montante revertido para o Fundo Municipal da Criança e do Adolescente de São Paulo.