
Uma nova vitória eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocaria um colapso severo nas contas públicas do país, gerando reflexos “econômicos, sociais e institucionais difíceis de reverter”, de acordo com a avaliação de Adolfo Sachsida, que esteve à frente do Ministério de Minas e Energia durante o governo Jair Bolsonaro (PL).
Ex-secretário de Política Econômica e figura central na condução dos rumos financeiros da gestão Bolsonaro, Sachsida divulgou seu parecer na última terça-feira (11), por meio da rede social X. No documento, o especialista adverte que uma continuidade da gestão petista caminharia para a expansão dos gastos públicos, o distanciamento em relação ao mercado financeiro e o respaldo protetivo do Supremo Tribunal Federal (STF).
"O Supremo, por sua vez, seguirá avançando sobre matérias fora de sua área de competência legal e recorrendo a inquéritos e procedimentos controversos contra quem ousasse questioná-lo", ponderou o ex-ministro. Em seu raciocínio, esse escudo institucional abriria margem para um cenário igualmente alarmante na esfera macroeconômica.
O analista sublinhou que, diante de um endividamento do Estado em ritmo descontrolado, taxas de juros elevadas e projeções em constante piora, o cenário nacional em 2028 seria de colapso fiscal. "E é justamente quando a realidade cobra a conta que aparecem as soluções heterodoxas: intervenção crescente na economia, tentativas de controlar o câmbio, restrições ao fluxo de capitais — medidas que longe de resolverem o problema apenas o agravariam", apontou.
De fato, o passivo do setor público apresentou forte elevação ao longo da atual gestão. Dados do Banco Central do Brasil (BC) indicam que a dívida atingiu 81,9% do PIB em junho deste ano, atingindo o patamar mais alto registrado desde abril de 2021, período marcado por gastos emergenciais durante a pandemia da Covid. O avanço representa um salto de 10,3 pontos percentuais quando comparado ao início do mandato, em janeiro de 2023.
Assim como sustentado por Sachsida, os prognósticos do setor financeiro para um eventual novo governo Lula são de cautela. Levantamentos semanais compilados pelo Relatório Focus do Banco Central mostram que consultorias do mercado projetam a dívida pública atingindo a marca de 100% do PIB em 2034. Já as estimativas da Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão ligado ao Senado Federal para monitoramento orçamentário, indicam uma aceleração ainda maior, prevendo que essa marca seja batida em 2031.
Grandes instituições do setor privado antecipam uma desaceleração expressiva no ritmo do PIB para 2027, impulsionada pelos desequilíbrios orçamentários. A XP Investimentos estima uma expansão real da economia de apenas 1% para este período, a menor taxa observada desde a crise sanitária, em função do encolhimento dos estímulos fiscais e parafiscais, que englobam dispêndios governamentais fora do orçamento tradicional.
Ainda que o crescimento econômico arrefeça, analistas apontam que as contas públicas continuarão sendo o ponto de maior vulnerabilidade, com o endividamento estatal batendo recordes logo no primeiro ano da nova administração. O cálculo menos pessimista entre os analistas de mercado parte do BTG Pactual, que projeta a dívida em 86,4% ao final de 2027.
As grandes instituições bancárias também têm alertado para os desafios estruturais. De acordo com a equipe de análise do Itaú, o entrave orçamentário do país é profundo e exigirá um freio na trajetória de expansão das despesas da União. Simultaneamente, economistas do Bradesco ressaltam que o país precisa intensificar de forma contínua o esforço primário, o saldo positivo nas contas governamentais, garantindo credibilidade às diretrizes fiscais em vigor.
A volatilidade nas contas públicas tende a impactar diretamente o cotidiano do cidadão e das empresas. Conforme os especialistas consultados pelo Boletim Focus, esse ambiente torna o controle da inflação uma tarefa árdua, o que obrigará o Banco Central a manter a Selic em níveis elevados, encarecendo o acesso ao crédito.
A despeito do cenário adverso traçado pelo mercado, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afasta a tese de descontrole nas contas públicas. Em entrevista concedida no último dia último 6 à GloboNews, o titular da pasta admitiu que a trajetória da dívida exige atenção, mas reiterou que "a equipe econômica pretende realizar ajustes fiscais nos próximos anos para estabilizar o endividamento".