Advogado de Matsunaga destaca diferenças entre filme sobre Elize e caso real

Em depoimento ao portal Migalhas, D'Urso relembrou os detalhes da apuração e frisou laudos técnicos que, segundo sua análise, desconstruíram as alegações defensivas e comprovaram o planejamento prévio

18/08/2026 às 13h58
Por: Marcela Mattiolli Colaboração para Felipeh Campos Fonte: Portal Migalhas
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Reprodução: Divulgação/Portal Migalhas
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O desdobramento judicial de Elize Matsunaga retornou às telas, contudo a dramatização nem sempre reflete a realidade dos autos processuais. A ponderação parte do advogado, Luiz Flávio Borges D'Urso, que trabalhou no auxílio à acusação em nome dos parentes de Marcos Matsunaga, acompanhando cada etapa das apurações e do júri.

O episódio ganhou novo destaque a partir da estreia do longa dramatizado “Elize: Sombras de Uma Mulher”, disponibilizado pela Netflix em 22 de julho. A obra audiovisual baseia-se na tragédia de maio de 2012, em São Paulo, ocasião em que Elize tirou a vida e esquartejou o esposo, Marcos Kitano Matsunaga, que exercia o cargo de executivo e era herdeiro da empresa Yoki.

Em depoimento ao portal Migalhas, D'Urso relembrou os detalhes da apuração e frisou laudos técnicos que, segundo sua análise, desconstruíram as alegações defensivas e comprovaram o planejamento prévio. O especialista também analisou a adaptação de delitos reais para a ficção e advertiu sobre o perigo de romantizar figuras criminosas.

Do trabalho investigativo aos laudos técnicos

D'Urso explicou que assumiu a representação dos familiares no período em que Marcos constava como desaparecido, sob a premissa de um possível rapto. A tese perdeu sustentação devido à falta de contatos exigindo valores de resgate.

De acordo com o jurista, gravações do circuito interno do prédio registraram a entrada da vítima na residência, sem qualquer imagem posterior de saída, enquanto Elize foi vista deixando a edificação carregando bagagens volumosas.

O caso tomou rumo decisivo com o achado e a confirmação da identidade dos fragmentos anatômicos, alinhados ao rastreamento do aparelho telefônico de Elize, que apontou o percurso feito por ela nos pontos de descarte dos restos mortais. Diante dos achados, ela admitiu a autoria.

D'Urso salientou que, após a admissão dos fatos, tentou fundamentar alegações de defesa própria e comoção extrema,  cujas premissas foram descartadas, segundo ele, diante do acervo de evidências.

Dentre os achados destacados figura o laudo de balística. O advogado explicou que o percurso do projétil de cima para baixo e a presença de resíduos de combustão apontaram para um disparo executado a curtíssima distância, divergindo do cenário relatado no primeiro depoimento de Elize.

Planejamento e a causa da morte

O profissional apontou ainda indicativos que reforçaram a tese de cálculo prévio, como a aquisição de uma serra elétrica às vésperas do evento e a troca da peça do cano do armamento empregado.

No tocante à razão do óbito, D'Urso explicou que o parecer da perícia médica revelou que a perfuração craniana não causou morte instantânea. Ele relatou a identificação de fluidos sanguíneos nas vias respiratórias pulmonares, sinalizando que a vítima mantinha respiração durante a incisão na região cervical. Os restos mortais chegaram a ser desenterrados para exames complementares.

Desfecho no tribunal

D'Urso relembrou que o julgamento estendeu-se por quase 11 dias. A pena inicial fixou-se em 19 anos, 11 meses e um dia de reclusão, sofrendo posterior abatimento para 16 anos mediante a retirada de um agravante.

Conforme o especialista, o núcleo familiar considerou o resultado uma resposta adequada da aplicação da lei, abstendo-se de contestar o tempo final estipulado para a pena.

"Não pode acontecer é glamorizar"

Ao analisar o impacto de obras baseadas em crimes reais, D'Urso ressaltou não se opor à gravação de produções cinematográficas ou jornalísticas, porém deixou um alerta:

"O que eu penso que não pode acontecer é glamorizar, é trazer uma condição de ídolo ao criminoso".

Na visão do advogado, abordagens de episódios verídicos precisam evitar a humanização excessiva ou a elevação dos autores de delitos. A respeito do lançamento recente sobre a história de Matsunaga, salientou tratar-se de uma narrativa dramatizada e não de um registro documental.

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