
O advogado, Marcos Roberto Cebola e Silva, conhecido por levantar suspeitas de falhas nos autos que culminaram na detenção de Deolane Bezerra, responde a uma investigação sob a acusação de tentar intimidar a Justiça no andamento processual. A apuração tomou forma após um atrito em audiência referente à Operação Scream Fake, conduzida no final de 2025, quando o defensor travou um embate verbal com o magistrado Deyvison Heberth dos Reis. As informações são do Metrópoles.
Naquela oportunidade, o profissional representava uma investigada detida ao tentar ingressar em uma unidade prisional portando quatro cartões de memória costurados na barra da calça. Conforme os levantamentos ministeriais, os dados armazenados detalhavam o fluxo financeiro e o esquema funcional de setores do Primeiro Comando da Capital (PCC), incluindo a ala batizada de “Gravatas” (destinada ao braço jurídico), além de departamentos de saúde e demandas operacionais. A apuração destacou ainda que a entidade ONG Pacto Social e Carcerário serviria de maquiagem para ações ilícitas do grupo.
No decorrer dos depoimentos, em outubro de 2025, o defensor pressionou pela soltura de sua cliente, declarando: “Se o senhor não revogar essas prisões, eu temo o senhor não adentrar ao Elísio”.
O juiz prontamente interrompeu a fala para saber se aquilo se tratava de uma ameaça e qual o sentido do termo “Elísio”. O advogado argumentou que se referia ao plano celestial, acrescentando que, perante irregularidades graves, a postura correta seria anular o feito para preservar o rito legal.
Em tom de indignação, o juiz Deyvison Heberth destacou que em cerca de duas décadas de magistratura e na condução de inúmeras ações ligadas ao crime organizado, jamais vivenciara algo similar: “O senhor me dizer que se eu não revogar a preventiva, então eu sou candidato a morrer”.
Cebola retrucou afirmando que “todo mundo vai morrer um dia”, alegando que seu comentário apontava para o plano metafísico, salvação ou condenação, reforçando que a instrução era “extremamente teratológica” e desenhava um “juiz de exceção”.
O caso motivou o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) a requisitar a abertura de inquérito para apurar a conduta. Após o atrito, a própria ré optou por cancelar a procuração do advogado, passando a contar com nova representação para sustentar sua apelação no início de 2026. Consta ainda que o jurista já havia ingressado com queixas formais na Corregedoria e na Ouvidoria contra o magistrado e o delegado do caso.
Marcos Roberto Cebola e Silva produziu uma série de 17 vídeos intitulada “InPrudente” e protocolou denúncias em órgãos de controle como CNJ, CNMP, Ministério Público, Judiciário e OAB, requerendo uma auditoria externa nas ações que envolveram Deolane Bezerra.
Entre as inconsistências apontadas por ele estão:
Revistas em celas conduzidas sem a presença de detentos;
Um aparelho celular que teria embasado acusações antes de sua apreensão formal e perícia;
Um trecho em papel recolhido na rede de esgoto de um presídio que deu início às apurações;
A divergência em um auto de apreensão de entorpecentes, no qual a quantidade registrada passou de 6,48 gramas para 6 quilos em registros posteriores.
Em relação a Deolane, o jurista argumenta que o nome dela não constava nos cinco procedimentos originais examinados por ele. A citação inicial teria ocorrido em depoimento colhido em janeiro de 2023, no qual uma depoente negou ter realizado repasses para a profissional. Contudo, meses depois, a frase “Pagamento em nome de a Deolane Bezerra Santos (advogada)” passou a integrar as alegações finais e a sentença, servindo de base para o pedido de prisão.
O advogado contestou também o montante de R$ 27 milhões atribuído à movimentação financeira da influenciadora, alegando que os analistas somaram as entradas e as saídas, duplicando o volume real negociado. Por fim, assinalou que a própria peça policial conclusiva empregou a expressão “em tese” ao descrever a conduta da investigada, indicando a necessidade de diligências complementares para comprovar o vínculo com o grupo investigado.