
O universo da música popular brasileira perdeu uma de suas figuras mais singulares nesse último domingo (18). O cantor, pianista e compositor Benito di Paula faleceu aos 84 anos, na capital paulista, após um ano de combate a um câncer de próstata. Ele se encontrava sob cuidados médicos no Hospital 9 de Julho, e a confirmação do óbito veio por meio de seus representantes oficiais. Detalhes a respeito das cerimônias de despedida e do sepultamento serão informados posteriormente.
A trajetória de Benito deixa um acervo lírico e melodioso que marcou presença constante em emissoras de rádio, atrações televisivas e encontros musicais pelo país. Obras como “Retalhos de Cetim”, “Charlie Brown”, “Mulher Brasileira” e “Tudo Está no Seu Lugar” figuram entre as criações que transformaram seu estilo de cantar e executar o instrumento em algo inconfundível.
Longe de atuar como mero fundo harmônico, o piano de cauda funcionava como o coração pulsante de sua arte. Sua batida marcante e percussiva, em perfeita sintonia com a seção de ritmo, ditava o andamento dos sambas e infundia forte identidade às suas performances. Paralelamente, sua interpretação vocal transmitia a emoção profunda das poesias, criando uma ponte harmoniosa entre a cadência do samba e o lirismo sentimental. Essa identidade sonora virou sua grande referência ao longo das décadas de 1970 e 1980, período no qual emplacou clássicos como “Como Dizia o Mestre” (1975), “Tudo Está no Seu Lugar” (1976) e “Proteção às Borboletas” (1977).
A assiduidade nos programas populares de auditório estreitou ainda mais os laços do artista com o grande público. Durante um depoimento concedido à Rádio Câmara no ano de 2023, o mestre resgatou passagens marcantes da carreira, relembrando suas históricas participações no show de Chacrinha ao lado do filho Rodrigo Vellozo, também instrumentista e companheiro de palcos.
A virada definitiva em sua projeção aconteceu com o lançamento de “Retalhos de Cetim”. A explosão do tema em 1973 catapultou o nome de Benito em escala nacional, tornando-se uma de suas faixas mais emblemáticas. O enredo narrativo que retrata a ansiedade e a desilusão diante de um desfile carnavalesco atravessou gerações, ficando para sempre cravado na memória afetiva do público como sinônimo do criador.
A composição ultrapassou fronteiras e ganhou novas roupagens na voz e nos instrumentos de grandes nomes da música global. Conforme aponta o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, a obra recebeu registros célebres do sambista Jair Rodrigues, da renomada orquestra francesa de Paul Mauriat e do virtuoso violonista norte-americano Charlie Byrd.
Mesmo ostentando o status de ícone consagrado, Benito manteve o espírito criativo em constante atividade. Ao completar oito décadas de vida em 2021, presenteou os fãs com um projeto de faixas inéditas. Nos anos posteriores, deu sequência à cumplicidade artística com Rodrigo Vellozo, compartilhando composições inéditas, agendas de shows e memórias de sua caminhada.
Sua herança melódica seguiu ressoando por meio de diferentes gerações e timbres. Nomes expressivos como Juçara Marçal, Teresa Cristina, Zeca Baleiro e Fernanda Takai regravaram suas produções, um movimento contínuo que renovou a alcance de uma obra edificada com sotaque próprio, equilibrada entre o gingado do samba e a paixão da MPB.