Crise do metanol: mortes suspeitas no Nordeste, interdições e medo generalizado em SP

Polícia Federal abriu um inquérito próprio para apurar a onda de intoxicações

01/10/2025 às 13h50
Por: Marcela Mattiolli Colaboração para Felipeh Campos
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Bebida alcoólica com metanol causou cegueira e morte em pelo menos 9 casos em SP — Reprodução: Freepik
Bebida alcoólica com metanol causou cegueira e morte em pelo menos 9 casos em SP — Reprodução: Freepik

O total de óbitos suspeitos por intoxicação com metanol em São Paulo elevou-se para cinco na terça-feira (30), intensificando o receio entre comerciantes e cidadãos. Há, inclusive, indivíduos que se recusam a servir bebidas destiladas temendo a contaminação. No entanto, o problema ultrapassou as fronteiras estaduais e atingiu o Nordeste, com dois falecimentos e um terceiro caso sob investigação em Pernambuco, todos ligados à provável presença da substância. Enquanto isso, agências paulistas fecharam três locais, incluindo o bar onde uma cliente perdeu a visão, e lacraram uma fábrica ilegal. A Polícia Federal (PF) também instaurou um inquérito específico para investigar a onda de envenenamentos.

Situação Epidemiológica e Resposta Governamental

Em uma coletiva de imprensa que contou com a presença do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, o titular da pasta da Saúde, Alexandre Padilha, informou que o número de casos de contaminação por metanol em São Paulo no mês de setembro corresponde à metade da média anual registrada em todo o país. Padilha classificou o cenário atual como "uma situação anormal", que contraria a série histórica.

"Os casos de intoxicação por metanol no Brasil costumam estar associados a pessoas em situação de rua (que adquirem como combustível) ou suicídio" — pontuou o ministro.

Até terça-feira, eram 22 ocorrências envolvendo intoxicação por metanol em São Paulo — sete confirmadas e 15 em análise. Na mesma data, foram identificados mais dois óbitos possivelmente vinculados ao solvente, que é habitualmente empregado em usos industriais e domésticos, como anticongelantes, diluentes, vernizes e até fluidos para copiadoras. O governador do estado, Tarcísio de Freitas (Republicanos), anunciou a criação de um centro de crise para lidar com a questão.

"Nos inquéritos que estão abertos, em que se está chegando às pessoas que estão trabalhando para adulteração nessas destilarias clandestinas, são indivíduos que não têm relação com o crime organizado e que não têm relação entre si" — declarou o governador.

A possível conexão com atividades do Primeiro Comando da Capital (PCC), entretanto, foi levantada pelo diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. No mês passado, a Operação Carbono Oculto mirou a atuação da facção no ramo de combustíveis em São Paulo. O metanol era justamente a substância usada para alterar os produtos comercializados nos postos de gasolina sob influência do grupo criminoso.

"A investigação dirá se há ligação com o crime organizado e operações anteriores" — ressaltou Rodrigues ao anunciar a abertura de um procedimento no âmbito da PF.

"Tudo indica que há uma distribuição para além do estado de São Paulo, o que atrai a competência da PF" — acrescentou Lewandowski.

A Crise Chega a Pernambuco

À noite, a Secretaria estadual de Saúde de Pernambuco comunicou que está apurando três eventos suspeitos de envenenamento por metanol. Dois homens morreram e um terceiro perdeu parte da visão. Eles residiam em Lajedo e João Alfredo, ambas cidades do Agreste pernambucano.

As suspeitas foram reportadas à Agência Pernambucana de Vigilância Sanitária (Apevisa) pelo Hospital Mestre Vitalino, em Caruaru, que prestou socorro às vítimas. “Assim que recebeu a notificação, a Apevisa iniciou a preparação de ações de fiscalização em distribuidoras de bebidas alcoólicas”, informou o governo estadual.

Interdições e Temor no Setor de Consumo

Na terça-feira (30), uma operação integrada, que uniu a Polícia Civil e as agências de vigilância sanitária municipal e estadual, suspendeu as atividades do bar Ministrão, localizado nos Jardins, bairro nobre da capital paulista. Este é o local onde a designer de interiores Radharani Domingos, de 43 anos, esteve em uma confraternização e consumiu três caipirinhas feitas com vodca para, no dia seguinte, começar a passar mal. Atualmente hospitalizada, ela perdeu a capacidade de enxergar. Um segundo estabelecimento, situado no bairro da Mooca, também foi interrompido, além de um endereço em São Bernardo do Campo.

Na Zona Sul da capital, no Planalto Paulista, um minimercado foi vistoriado, resultando na apreensão e interdição de mais de 40 garrafas de whisky, gim e vodca. O representante legal do comércio foi levado à delegacia para prestar esclarecimentos.

A Polícia Civil cumpriu ainda três mandados de busca e apreensão em Americana, onde operava uma fábrica clandestina. No local, foram apreendidos mais de 18 mil itens, que ainda serão submetidos à perícia. Contudo, a polícia informou que não foi detectado metanol entre os materiais recolhidos. Dois homens foram detidos por pirataria e serão responsabilizados por crimes contra a propriedade intelectual, a saúde pública e as relações de consumo.

Diante da crise, clubes sociais tradicionais de São Paulo suspenderam integralmente a comercialização de bebidas destiladas. Associações como o Clube Athlético Paulistano, o Clube Hebraica, o Clube Atlético São Paulo (SPAC) e o Esporte Clube Sírio anunciaram a medida preventiva na terça-feira.

“Por motivo de saúde pública, está temporariamente suspensa a venda e a distribuição de bebidas alcoólicas destiladas no clube, em todos os seus concessionários. A medida visa proteger a saúde e a segurança de sócios e visitantes”, divulgou o Hebraica em suas redes.

No segmento de bares e restaurantes de São Paulo, a onda de envenenamentos gerou um clima de apreensão. Nos bastidores, os locais demonstram preocupação generalizada com a segurança dos produtos e o risco de desconfiança dos clientes, o que motivou uma série de comunicados públicos na internet.

“Nossos destilados são comprados há anos com os mesmos fornecedores, autorizados e credenciados”, informou o bar Tiquim, na Pompeia, garantindo estar “mais atento do que nunca”. “Todas as nossas bebidas alcoólicas e insumos são adquiridos exclusivamente de fabricantes ou distribuidores oficiais homologados, sempre com nota fiscal, lacrados e com selo de autenticidade”, ressaltou o Grupo Alife Nino (Rainha, Princesa, Boa Praça, Ninno).

Preocupação com Estoque de Antídotos

Outro ponto de inquietação reside na saúde pública. O Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox), ligado à Universidade de Campinas (Unicamp) e referência nesse tipo de contaminação, emitiu um alerta sobre o risco de escassez de antídotos para o metanol. De modo geral, utiliza-se etanol puro ou fomepizol (mais fácil de administrar) para amenizar os efeitos da substância. Em alguns cenários, os pacientes precisam ser submetidos à hemodiálise para evitar que a substância fique retida no organismo.

— Poucos estabelecimentos hospitalares possuem estoque. Muitas vezes a alternativa é utilizar uma bebida destilada por via de sonda até que o antídoto esteja disponível. É o que orientamos em algumas situações — esclareceu Fabio Bucharetti, coordenador do CIATox.

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