
Com 92 anos de vida e mais de sete décadas dedicadas à TV, ao cinema e ao teatro, Othon Bastos, um dos maiores atores brasileiros, esteve em São Paulo entre setembro e o início de outubro com seu primeiro monólogo, Não me entrego, não!.
No espetáculo de 100 minutos, o veterano revisita sua trajetória, propondo uma reflexão sobre cada momento de sua vida, dividida em blocos temáticos como trabalho, amor e arte, com referências a grandes autores.
Letícia Sena, apresentadora do videocast ‘IstoÉ Gente Entrevista’ da revista IstoÉ Gente, esteve no Teatro Sérgio Cardoso para entrevistá-lo. Ela encontrou um artista acolhedor, com um brilho nos olhos que revela o segredo de sua longevidade artística: o fôlego e a paixão pelo teatro.
Ao longo da conversa, Othon Bastos enfatizou o amor pelo teatro e a importância de se manter ativo, mesmo aos 92 anos. Questionado sobre como surgiu o desafio do monólogo, ele revelou que a ideia veio após assistir a uma peça de Flávio Marinho.
“Eu nunca tinha feito um monólogo na vida,” disse o ator. “Fui ver uma peça do Flávio Marinho e achei maravilhosa. Conversei com ele e sugeri: ‘Vamos fazer um trabalho juntos?’ Sempre gostei de contracenar; o bonito do teatro é se doar aos colegas.”
O ator explicou a linha editorial estabelecida para o texto do monólogo: “Eu disse: ‘Não quero amargura. Não quero falar de mãe, pai, avô, bisavô. Quero falar da vida. A vida é mais importante que a posteridade.’ A frase que mais me marcou veio da poetisa Emily Dickinson: ‘Eu nasço contente todas as manhãs.’ É isso que quero transmitir.”
Sobre sua preparação e a longevidade, Othon é direto: “Eu me preparo, caminho, estudo, repito textos. Para mim, fazer teatro é viver. Não posso ficar muito tempo longe do palco.”
Um dos pontos altos da entrevista foi a reflexão de Othon Bastos sobre os grandes atores veteranos do Brasil. Ele destacou o prazer de ver colegas como Fernanda Montenegro, Laura Cardoso, Nathália Timberg, Rosamaria Murtinho e Mauro Mendonça em atividade.
Othon descreve o trabalho desses artistas como um “dom” que eles distribuem ao público. Em seguida, ele traz uma reflexão comovente: “A maior felicidade é ver colegas como Fernanda Montenegro, Laura Cardoso e Natália Timberg em atividade. É um dom que distribuem para o público, não guardam para si.”
No entanto, o ator também expressa sua preocupação sobre o futuro:
“Nossa geração está acabando. Uma vez, a Nathália foi ver o nosso espetáculo e, depois, a gente sentou para conversar. Para nós, o tempo não existe, o que existe é amizade. Então ela me fez uma pergunta: ‘Ó, quem é que vai nos substituir, né? Nossa geração está acabando, né?’.”
Em um ponto mais polêmico da conversa, o ator foi perguntado sobre o debate em torno da Lei Rouanet, que está financiando seu monólogo. Embora prefira não falar de política no palco "Não falo de política. Falo da vida e dos obstáculos que superamos”, ele defendeu a importância da lei para a cultura. “Há muitas críticas e modificações, mas a lei ajuda artistas,” afirmou. “Prefiro entender caso a caso. No meu tempo, tudo era na base do esforço e da prática; agora há processos e prestações de contas, mas ainda é fundamental para manter a cultura viva.”
Ele finaliza, valorizando o que considera essencial: “Para fazer teatro, você tem que amar. Teatro não é exibição. Você tem que se entregar ao teatro. Quando você entra naquele palco, entra com amor. Esse amor você leva com você e transmite para a plateia.”