
O chefe de Estado, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarou, nesta sexta-feira (24), que os traficantes "são prejudicados pelos consumidores também", ao tecer comentários sobre a ação dos Estados Unidos contra o crime organizado internacional.
Desde o início do ano, o governo de Donald Trump classificou diversos cartéis como entidades terroristas e, mais recentemente, realizou ataques mortais a embarcações no Caribe e no Pacífico, sem apresentar provas de que os alvos eram, de fato, "narcoterroristas". Em conversa com repórteres, Lula criticou a iniciativa de Washington em área sob jurisdição de outras nações e mencionou que debateria "com prazer" o assunto em um futuro encontro com o líder americano.
No diálogo, Lula sustentou que o planeta não pode persistir na "polarização do bem contra o mal" e que o enfrentamento ao comércio ilícito de substâncias proibidas passa também por medidas direcionadas aos consumidores desses produtos, os quais definiu como "responsáveis" pela existência dos revendedores.
"Toda vez que a gente fala sobre combater as drogas, possivelmente fosse mais fácil a gente combater os nossos viciados internamente. Os usuários são responsáveis pelos traficantes, que são vítimas dos usuários também. Ou seja, você tem uma troca de gente que vende porque tem gente que compra, de gente que compra porque tem gente que vende. Então, é preciso que a gente tenha mais cuidado no combate à droga" — pontuou o presidente.
Lula defendeu que qualquer sanção deve ser precedida de um julgamento e asseverou que possíveis suspeitas não podem autorizar invasões de territórios no exterior.
"Antes de punir alguém, eu tenho que julgar essa pessoa. Eu tenho que ter provas. Você não pode simplesmente dizer que vai invadir, que vai combater o narcotráfico na terra dos outros, sem levar em conta a Constituição dos outros países, a autodeterminação dos povos, sem levar em conta a soberania territorial de cada país. Se o mundo ficar uma terra sem lei, sem respeitabilidade, vai ficar muito difícil viver" — enfatizou.
O governante brasileiro ressaltou, ainda, que a Polícia Federal e as corporações policiais estaduais têm formado uma frente contra a circulação ilegal de entorpecentes e armamentos, além do contrabando. Observou, contudo, que a luta contra o crime que transcende fronteiras depende da coordenação entre as nações.
"É muito melhor os Estados Unidos se disporem a conversar com a polícia dos outros países, com o Ministério da Justiça dos outros países, para a gente fazer uma coisa conjunta. Se a moda pega e cada um acha que pode invadir o território do outro para fazer o que quer, onde vai surgir a palavra respeitabilidade da soberania dos países? Eu preciso discutir esses assuntos com o presidente Trump, se ele colocar na mesa" — concluiu Lula.
A afirmação de Lula, de que os comerciantes de ilícitos seriam "prejudicados pelos consumidores também", teve repercussão entre personalidades políticas de direita. Os deputados federais Nikolas Ferreira (PL-MG) e Junio Amaral (PL-MG) compartilharam um trecho da entrevista coletiva do petista no X e expressaram ironia com a analogia.
"Lula acaba de anunciar que traficantes são vítimas dos usuários. No ritmo que vai, daqui a pouco o PCC vira ONG", escreveu Nikolas.
Já o senador Ciro Nogueira (PP-PI) utilizou a fala de Lula para atribuir ao presidente o hábito de culpabilizar indivíduos atingidos por diversos delitos.
"Os traficantes são vítimas dos usuários, os assaltantes são vítimas dos assaltados, os assassinos são vítimas dos mortos, os estupradores são vítimas das violentadas e por aí vai. Presidente Lula, vítima é o povo brasileiro dessa visão em que as vítimas são culpadas e os culpados são vítimas", ressaltou.