
Vinte anos depois, a pergunta não é se precisava de uma continuação, mas sim se ainda havia algo relevante a dizer. “O diabo veste Prada 2” responde sem rodeios: tenta, arrisca, acerta em parte, mas não sai ileso das próprias ambições.
Reencontrar as protagonistas tem gosto de memória boa, dessas que aquecem sem esforço. Andy (Anne Hathaway), de volta à Runaway para contornar uma crise digital, está visivelmente mais madura, segura de si, mas ainda atravessada por aquele velho nervosismo quando cruza o caminho de sua antagonista. Emily (Emily Blunt) seguiu um novo caminho, mas repleto de atalhos que a fazem retornar a um passado no qual ficou presa. Já Miranda se mantém imponente, embora com uma energia diferente, menos cortante, quase contida.
E é justamente nesse “quase” que o filme mostra suas fissuras. Em tempos de redes sociais, de informação que nasce e envelhece no mesmo minuto, o roteiro tenta acompanhar o ritmo do mundo. Quer falar de tudo, abraçar muitas histórias ao mesmo tempo e dar conta de um cenário em constante mutação. Só que, nessa pressa, tropeça. As tramas se acumulam, se sobrepõem, e o resultado é uma leve confusão, ainda que glamurosa. Falta aquele respiro que o primeiro longa tinha, o tempo de desenvolver cada situação sem atropelos. Aqui, a leveza dá lugar a uma certa ansiedade narrativa.
Até Meryl Streep, impecável como sempre, parece sentir esse novo ritmo. Sua Miranda Priestly continua magnética, porém um pouco mais apática. As tiradas ácidas e os comentários impiedosos que marcaram época já não cabem mais da mesma forma nos dias de hoje. O que antes era um sofisticado veneno soa inadequado e politicamente incorreto atualmente. E, sem esse tempero, a personagem perde um pouco do brilho feroz que a definia.
O figurino acompanha essa transformação, mas não necessariamente para melhor. Se antes havia uma elegância aspiracional, agora o que se vê é algo mais próximo da passarela pura: roupas conceituais, chamativas, quase distantes da vida real. Bonitas, mas menos desejáveis ou próximas daquele encanto de “eu usaria isso” que o primeiro filme despertava nas entusiastas da moda.
Ainda assim, há charme nesse reencontro. O filme acerta ao propor uma relação mais cúmplice entre as três protagonistas, trocando a rivalidade por parceria e corrigindo equívocos que as acompanharam durante esses vinte anos. O mesmo acontece com Nigel, do talentoso Stanley Tucci, que, apesar do tempo, recebe seu reconhecimento. E, mesmo com alguns excessos, a obra entrega momentos que valem pela nostalgia e pelo carinho com que revisita suas personagens.
No fim, fica a sensação de que o primeiro “O diabo veste Prada” caminhou com salto firme e seguro, enquanto a continuação, também escrita por Aline Brosh McKenna e dirigida por David Frankel, prefere correr para não ficar para trás. E, nessa corrida, até chega longe, mas abandona pelo caminho um pouco da fluidez que fez o público se apaixonar lá atrás. Mesmo assim, fica a reflexão: em 2026, já não cabe mais dizer que o diabo veste apenas Prada, mas sim o que melhor lhe convém.