
Existe algo especialmente frustrante em um filme que entrega uma boa ideia e não sabe o que fazer com ela. "A última casa", lançamento da Netflix, parte de uma premissa poderosa, cria expectativas, desperta curiosidade e faz o espectador imaginar infinitas possibilidades. Porém, quanto mais avança, mais o filme parece desperdiçar o próprio potencial, trocando profundidade por respostas simples e transformando um grande mistério em uma experiência menor do que prometia.
A proposta é intrigante. Em um dia comum, uma família, ao tentar sair de casa, descobre que não é possível. Perante uma chuva torrencial, portas não abrem, janelas não cedem e o mundo lá fora se transforma em um território inatingível. Comida e água têm prazo de validade. Remédios acabam. E aquilo que parecia um lar se torna, por anos, um reduto de medo, sobrevivência e dos limites das relações humanas.
É o tipo de narrativa que faz o espectador pensar: e se fosse comigo?
Wagner Moura e Greta Lee, dos aclamados "O agente secreto" e "Vidas passadas", fazem o que podem, mas seus personagens, Jason e Ann, são tão virtuosos que parecem ter saído de uma propaganda de margarina prestes a enfrentar o apocalipse. Bons pais, bons amigos e alicerces de uma família aparentemente sem grandes rachaduras. No entanto, quando o confinamento começa a sufocar, seria natural que aquela situação revelasse alguns segredos, ressentimentos e fragilidades.
Mas o roteiro prefere brindá-los com desafios cada vez mais improváveis.
A comida acabou? Dá-se um jeito! É preciso começar a caçar? É hora de inventar uma engenhoca! Não há onde plantar? Cria-se uma horta dentro de casa. E, quando percebemos, estamos menos preocupados com o que aconteceu com os moradores e mais curiosos para saber qual será a próxima gambiarra.
É aí que o suspense perde a força.
Quando existe uma porta fechada e não sabemos o que há do outro lado, as ameaças surgem no imaginário e o silêncio incomoda mais do que um barulho ensurdecedor.
Entretanto, o que deveria ser uma história sobre pessoas obrigadas a conviver com o desconhecido vai se transformando em uma fantasia repleta de soluções menos interessantes do que as perguntas que vão surgindo a cada ato.
A reflexão sobre isolamento e dependência cede espaço a um terror politicamente correto sobre meio ambiente, exigindo do espectador uma dose considerável de boa vontade.
O filme não é desconcertante por sua ideia mal executada. Pelo contrário. Na verdade, é grande demais para o que conseguem fazer com ela.
O confinamento poderia revelar o pior e o melhor daqueles personagens. Mas, em vez de aprofundar essas possibilidades, o filme corre para tentar explicar o que não tem mais justificativa.
E, quando finalmente chega o desfecho, aquele que deveria reorganizar tudo o que foi visto, a sensação é de decepção. Como se o filme, depois de boa parte do tempo tentando manter um mistério, naufragasse justamente na hora de entregar as respostas.
O diretor, Louis Leterrier, tropeça na própria premissa ao criar uma obra que, por vezes, quer ser suspense, em outros momentos drama e, em determinados trechos, até terror e ficção, mas não consegue expressar com clareza o que realmente se propõe a fazer.
Assim como sua história de quase duas horas, às vezes o problema não é estar preso dentro de casa, e sim não saber o que fazer com a chave.