
A advogada e criadora de conteúdo digital Deolane Bezerra foi transferida para o regime de reclusão nesta quinta-feira (21). A prisão ocorreu no âmbito de uma varredura da Polícia Civil do Estado de São Paulo concebida para desmantelar uma estrutura de lavagem de dinheiro que servia ao Primeiro Comando da Capital (PCC), a principal facção criminosa em atividade no Brasil.
Conforme revelado pelas autoridades que lideram o inquérito, a advogada integrava um verdadeiro “oceano de lavagem de dinheiro”, descoberto a partir de fragmentos de cartas recuperados nas tubulações de esgoto da Penitenciária II Mauricio Henrique Guimarães Pereira, complexo de segurança máxima localizado em Presidente Venceslau, no extremo oeste paulista.
O ponto de partida da apuração remonta a esse insólito episódio ocorrido em 2019. Durante uma varredura de rotina nos pavilhões habitacionais, policiais penais flagraram o momento em que dois custodiados tentaram dar fim a documentos arremessando-os na descarga do vaso sanitário.
Um mecanismo de retenção instalado preventivamente na rede de esgoto da unidade prisional conseguiu interceptar os pedaços de papel rasgado. Remontadas como um quebra-cabeça, as tiras compunham uma correspondência interna na qual a liderança carcerária ordenava a aquisição de armamento de guerra, como fuzis, e cobrava retaliações violentas contra servidores públicos que vinham apertando o cerco contra a organização.
O bilhete interceptado trazia indicações precisas sobre uma firma de logística instalada estrategicamente nos arredores do presídio. Cruzando dados, o núcleo investigativo constatou que o estabelecimento comercial operava estritamente no papel, servindo como duto para lavar os rendimentos oriundos do tráfico e de roubos. Os proprietários formais da empresa conseguiram escapar e figuram atualmente na lista de procurados.
Ao rastrear os extratos bancários e obter a quebra do sigilo financeiro da transportadora fictícia, os peritos detectaram transferências eletrônicas volumosas e diretas para as contas de Deolane Bezerra. Nas palavras do delegado Edmar Caparroz, a magnitude da rede indicava a existência de um “oceano de lavagem de dinheiro”.
Aprofundando os levantamentos, a Polícia Civil localizou outras inconsistências cadastrais graves envolvendo a influenciadora. Chamou a atenção dos agentes o registro de 35 empresas de sua propriedade vinculadas a um único endereço fiscal: uma habitação social de baixo custo, oriunda de programas governamentais de moradia popular.
Durante o cumprimento das ordens judiciais, a corporação confiscou quatro automóveis de luxo de Deolane, cuja avaliação combinada ultrapassa o montante de R$ 5 milhões. Entre os veículos apreendidos, destaca-se um modelo exclusivo cuja importação e comercialização não são realizadas de forma oficial no mercado automotivo brasileiro.
A mobilização policial resultou no cumprimento de cinco mandados de prisão preventiva. Além da advogada, as ordens judiciais alcançaram duas lideranças que já se encontram isoladas em presídios do sistema penitenciário federal, lista que inclui Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola. Uma prisão em flagrante por posse ilegal de munições de grosso calibre foi efetuada e dois alvos conseguiram fugir antes da chegada das equipes.
| Alvo da Investigação | Status Atual | Localização / Observação |
| Deolane Bezerra | Presa preventivamente | Capturada no Brasil após retornar da Itália. |
| Marcos Willians (Marcola) | Notificado na prisão | Já cumpre pena em presídio federal de segurança máxima. |
| Paloma Herbas Camacho | Foragida da Justiça | Sobrinha de Marcola; suspeita de estar na Espanha e sob radar da Interpol. |
| Casal de empresários | Foragidos | Proprietários da transportadora de fachada em Presidente Venceslau. |
A força-tarefa informou que Deolane havia viajado recentemente para Roma e que as autoridades brasileiras já monitoravam seus passos em solo europeu. Caso sua viagem de retorno não tivesse ocorrido na última quarta-feira (20), a prisão teria sido executada na Itália por meio de cooperação internacional.
Esta não é a primeira incursão da influenciadora pelo sistema prisional. No ano passado, Deolane chegou a ser detida em uma apuração correlata que mirava esquemas de lavagem de dinheiro operados por meio de plataformas de apostas eletrônicas (bets) no estado de Pernambuco. Naquela ocasião, ela obteve a liberdade por meio de um instrumento de habeas corpus e o procedimento acabou arquivado pelas autoridades locais sem o oferecimento de denúncia formalizada contra ela.
Desta vez, no entanto, o desfecho processual aponta para uma direção substancialmente mais grave. O arcabouço probatório acumulado pela Polícia Civil de São Paulo é considerado robusto e a fase inquisitorial encontra-se praticamente finalizada. O delegado responsável já elaborou o relatório final do inquérito, peça que funciona como um sumário analítico de todas as diligências realizadas.
As evidências coletadas ao longo do dia passarão por triagem técnica, contudo, de acordo com o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, expoente no combate às facções paulistas, a apresentação de uma denúncia criminal ao Poder Judiciário é tida como certa. Nos próximos dias, Deolane deverá ser transferida para uma unidade prisional nas proximidades de Presidente Prudente, comarca responsável por processar e julgar a ação penal.