Vorcaro e publicitário mandaram 'revirar a vida' de jornalista: “Preciso calar essa mulher”

A hostilidade contra a jornalista foi desencadeada por reportagens que expuseram suspeitas de fraudes e manipulação de valores no referido banco

02/07/2026 às 10h49
Por: Marcela Mattiolli Colaboração para Felipeh Campos Fonte: O Globo
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Reprodução: Ana Paula Paiva/Valor / Redes Sociais
Reprodução: Ana Paula Paiva/Valor / Redes Sociais

Investigações conduzidas pela Polícia Federal (PF) revelaram um esforço coordenado entre o antigo gestor do banco Master, Daniel Vorcaro, e o agente publicitário Thiago Miranda, responsável pela agência Mithi, para impedir o trabalho e invadir a privacidade da colunista do GLOBO, Malu Gaspar. A hostilidade contra a jornalista foi desencadeada por reportagens que expuseram suspeitas de fraudes e manipulação de valores no referido banco.

Incomodado, Vorcaro solicitou ações contra a profissional, ao que Miranda respondeu que iria "revirar a vida" da jornalista, compartilhando com o ex-banqueiro dados sensíveis, como endereços, informações de familiares e detalhes bancários da repórter. O material, recuperado do celular de Vorcaro, data dos meses de março e abril de 2025, período em que a instituição financeira enfrentava turbulências que culminariam em sua liquidação extrajudicial pelo Banco Central em novembro daquele ano.

Segundo os registros, Vorcaro expressou a necessidade de "frear a Malu Gaspar", alegando que ela "iria dar trabalho nos próximos dias" após uma entrevista que ele considerou "bem ruim". Miranda, em sintonia, enviou ao ex-banqueiro um texto da jornalista que detalhava suspeitas de irregularidades no banco.

Confira um trecho da conversa:

VORCARO: Acho que você deve entrar né. VORCARO: Vamos ter que tentar pegar algo dessa mulher no pessoal. MIRANDA: Exatamente. Ela joga baixo. Vou revirar a vida dela. MIRANDA: Alguma coisa vamos achar. VORCARO: Obrigado, amigo.

No dia 1° de abril de 2025, Miranda relatou que sua equipe estava empenhada na busca: "Meu time está atrás. Precisamos achar algo". "Nem multa na CNH dela encontrei. Filhos novos ainda também. Te deixo ciente, vou achar algo", acrescentou. Posteriormente, ao enviar outra reportagem de Gaspar sobre a falta de liquidez do Master, Miranda reforçou: "Ela não para", mencionando que precisava "arrumar uma forma de calar essa mulher".

Além da espionagem, os envolvidos discutiram uma "proposta milionária" para tentar cooptar a jornalista e interromper as apurações investigativas. Miranda sugeriu que o banimento das críticas ocorresse via contratação por meio da revista IstoÉ, conectada ao grupo que possuía laços com os negócios de Vorcaro. Durante o intercâmbio de mensagens, Miranda encaminhou rendimentos mensais, endereços e dados do veículo da jornalista, enquanto ambos alinhavam valores para tentar silenciar as denúncias. Miranda estendeu propostas de contratação similares ao colunista Lauro Jardim, também do GLOBO.

O registro dessas comunicações corrobora o comportamento recorrente do grupo de Vorcaro em pressionar jornalistas. Em uma decisão judicial de março deste ano, o ministro do STF, André Mendonça, mencionou indícios de que o ex-banqueiro teria planejado uma ação violenta contra Lauro Jardim para “prejudicar violentamente” o colunista, com o intuito de “calar a voz da imprensa que ousasse emitir opinião contrária aos seus interesses privados”. Tais ameaças contavam com o suporte de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, que gerenciava "A Turma", grupo descrito pela PF como um “braço armado” utilizado para "coação por meio de sua milícia".

Em manifestação oficial, o GLOBO declarou:

"O GLOBO repudia a devassa ordenada pelo investigado na vida da colunista Malu Gaspar, uma das mais respeitadas jornalistas do país. A ação, como deixa claro a troca de mensagens, visava calar a voz da imprensa e revela um modus operandi do grupo criminoso, que já havia ameaçado de ato violento outro colunista do jornal. Os envolvidos nessa trama de perseguição devem ser investigados com rigor. O GLOBO e seus jornalistas não se intimidarão e seguirão acompanhando o caso e trazendo luz às informações de interesse público".

Segundo informações do jornal, a defesa de Thiago Miranda afirmou não ter tido acesso aos arquivos citados e criticou o que classificou como "vazamento seletivo" das investigações, declarando não ter condições de comentar o teor das conversas.

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