Vorcaro contratou cerca de 50 influenciadores e planejou filme sobre o caso Master

A obra visava reunir depoimentos exclusivos, dados sigilosos e a perspectiva do investigado sobre o rombo bilionário envolvendo o Banco Master

14/07/2026 às 14h08
Por: Marcela Mattiolli Colaboração para Felipeh Campos Fonte: Gazeta do Povo
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Reprodução: Divulgação/Banco Master
Reprodução: Divulgação/Banco Master

Diante do fracasso das tratativas para uma delação premiada, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro buscou uma estratégia alternativa para emplacar sua narrativa: a produção de um filme. De acordo com elementos colhidos pela Polícia Federal durante a 10ª etapa da operação Compliance Zero, que teve como alvo o publicitário Thiago Miranda, Vorcaro formalizou, ainda enquanto estava detido na Superintendência da PF em Brasília, em março deste ano, um pacto para a realização de um longa-metragem documental. A obra visava reunir depoimentos exclusivos, dados sigilosos e a perspectiva do investigado sobre o rombo bilionário envolvendo o Banco Master. As informações são da Gazeta do Povo.

O material também corroborou uma das linhas centrais da apuração: a montagem de um exército digital composto por dezenas de influenciadores, portais e comentaristas. O objetivo desse grupo era desacreditar o Banco Central e blindar o ex-banqueiro no momento em que a instituição financeira enfrentava o decreto de liquidação. A assessoria jurídica de Thiago Miranda negou qualquer irregularidade nas atividades do publicitário.

Vorcaro sustenta a tese de que seria um alvo de conglomerados bancários interessados em eliminar a concorrência. O filme serviria para propagar esse argumento, enquanto a rede de propaganda digital funcionava como um escudo para evitar a falência do Master. Estimativas apontam que certos perfis teriam recebido cifras na casa dos R$ 2 milhões, com valores ajustados conforme o alcance do contratado, uma frente batizada pelos envolvidos como “Operação DV”.

A PF também identificou que o conjunto de provas apreendido reforça a tese de que Vorcaro pretendia se evadir do Brasil rumo aos Emirados Árabes Unidos quando foi capturado, em novembro de 2025.

O acerto dentro da cela

A minuta do contrato para o longa-metragem, intitulado provisoriamente de Caso Banco Master, foi localizada em diligências realizadas no dia 9 de julho. A corporação aponta que o acerto foi assinado em 31 de março na sede da PF, período em que o ex-banqueiro recebia visitas de diversos advogados para tratar de acordos de colaboração. O ministro do STF André Mendonça, ao solicitar o passaporte de Miranda em 11 de julho, ressaltou a descoberta desse documento.

O publicitário, responsável pela produção, também atuou como intermediário entre Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro, facilitando o patrocínio para outro filme, Dark Horse, focada na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. O site The Intercept Brasil divulgou, em maio, áudios e textos nos quais o senador solicitava recursos ao banqueiro para viabilizar o projeto.

O contrato do filme Caso Banco Master previa seis meses de vigência, com o compromisso de Vorcaro em colaborar com a obra mediante entrevistas e acesso a documentos. Embora a assinatura de contratos no cárcere não seja, por si só, um ato ilícito, as autoridades investigam as motivações e o teor do material, podendo atribuir contornos criminais à empreitada.

O exército digital e o suposto plano de fuga

A investigação revelou que, sob a alcunha de “Projeto DV”, Miranda coordenou entre 40 e 50 perfis para propagar narrativas de defesa do Master e ataques a autoridades regulatórias. Miranda, em depoimento, reconheceu a contratação, alegando tratar-se de uma estratégia de gestão de crise apresentada após a soltura de Vorcaro, com custos na ordem de R$ 8 milhões.

Quanto à tentativa de fuga, os relatórios enviados ao ministro Mendonça indicam que Vorcaro possuía uma espécie de "contrainteligência armada", apelidada internamente de “A Turma”, que o teria alertado sobre a operação agendada para 18 de novembro. A defesa do ex-banqueiro, contudo, negou a intenção de fuga na época, argumentando que a viagem ao exterior possuía natureza comercial, visando a venda do banco para investidores estrangeiros.

Em nota, a defesa de Thiago Miranda reiterou que o publicitário atua dentro da legalidade, respeitando as liberdades individuais e institucionais. Os advogados enfatizam que a existência de um inquérito não implica culpabilidade, resguardando os direitos ao devido processo legal e à presunção de inocência, permanecendo à disposição para prestar esclarecimentos.

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