
Poucos cineastas entendem tão bem o poder da imagem como Christopher Nolan. Em "A Odisseia", já em cartaz nos cinemas, ele transforma o poema de Homero, um dos mais importantes da literatura ocidental, em um espetáculo autoral de 250 milhões de dólares.
Os efeitos visuais impressionam sem parecer um exercício de vaidade, o desenho de som é avassalador e a trilha de Ludwig Göransson, vencedor do Oscar por "Oppenheimer", também dirigido por Nolan, assume um papel tão visceral que, em muitos momentos, conduz com maestria cada passo da jornada.
Aqui, o diretor britânico continua obcecado pela técnica. E isso é, ao mesmo tempo, sua maior virtude e sua principal limitação. É difícil encontrar um cineasta que domine tão bem a linguagem da sétima arte e, ainda assim, não consiga acrescentar mais calor humano aos seus diálogos, tornando-os quase mecânicos. E assim é seu mais novo trabalho: impecável na forma, mas com as emoções, por vezes, à deriva.
Contudo, o elenco encontra espaço para voar. Matt Damon interpreta um Odisseu sóbrio, convincente e carregado pelo peso de quem já viu a guerra de perto. Tom Holland faz de Telêmaco um jovem que amadurece diante de nossos olhos e encontra alguns momentos de sensibilidade que ajudam a aproximar o público de seu personagem. Anne Hathaway é quem melhor rompe a frieza característica do universo de Nolan. Sua Penélope concentra a carga emocional do filme e transforma cada silêncio em algo profundamente inquietante.
Robert Pattinson confirma, mais uma vez, a versatilidade que vem demonstrando nos últimos anos. Seu Antínoo desperta interesse desde a primeira aparição e, justamente por isso, deixa a sensação de que merecia mais tempo para desenvolver suas camadas. Já Samantha Morton compõe uma Circe tão misteriosa quanto elegante.
Mas é no desfecho que "A Odisseia" revela sua maior beleza. Nolan entende que voltar para casa nunca significou apenas atravessar o mar. O herói que vence monstros e tempestades é derrotado pelo tempo, que transforma seu legado apenas em lembranças.
Assim como em "Oppenheimer", coroado pela Academia como Melhor Filme de 2023, o diretor volta a refletir sobre homens que acreditam salvar o mundo por meio de feitos que também podem destruí-los.
A ODISSEIA (THE ODYSSEY) | DIR.: CHRISTOPHER NOLAN | EUA | 2026
NOTA: 7,5