
A renomada atriz Claudia Raia, de 59 anos, concentra esforços nos preparativos para a nova fase do espetáculo Tarsila, a Brasileira, projeto em que acumula os papéis de estrela principal e também de produtora. Em um bate-papo exclusivo concedido ao portal Terra, a artista abriu o coração sobre sua trajetória no teatro, admitindo que o aprendizado como produtora cultural custou caro financeiramente em seus primórdios.
"No começo da minha carreira, eu produzia sem saber produzir. Então, levei muita lambada. Na minha primeira produção, levei muito prejuízo, porque o espetáculo não fez sucesso", revelou a veterana.
As dificuldades iniciais exigiram sacrifícios drásticos para honrar os compromissos assumidos: "Eu até entrei como atriz para ver se melhorava de público, não melhorou nada. O espetáculo realmente não pegou. E eu vendi carro, vendi um apartamento que eu estava começando a comprar...".
Com o passar dos anos, a vivência prática lapidou suas habilidades administrativas, conferindo-lhe a estabilidade que desfruta na atualidade. "A vida do produtor é isso, é arriscar. A vida do produtor é risco. Você pode ganhar, você pode perder, você pode ganhar mais ou menos, é isso. Mas a intenção do fazer, sabe? Isso não me abandona", ponderou. O fascínio pela criação criativa permanece intacto: "Essa paixão que eu tenho de levantar um projeto do zero, sabe, que está no papel ou que está na minha cabeça, colocar no papel, isso virar um espetáculo... Isso, para mim, é uma força incrível. E eu acho que eu gosto tanto de produzir quanto eu gosto de representar".
Nas tábuas do teatro, a intérprete assumiu o cargo de escancarar o lado menos romantizado e mais complexo de uma das maiores mentes criativas da história nacional, aprimorando os altos e baixos financeiros, afetivos e artísticos de Tarsila do Amaral.
"Do mesmo jeito que ela foi muito feliz e teve os momentos áureos dela, ela também teve uma trajetória muito trágica. Então, agora, o que mais me impressiona é que a Tarsila é muito diferente de mim. É o oposto de mim, na verdade. É o personagem mais diferente que eu já fiz na vida", pontuou.
Incorporar a pintora exigiu uma profunda transformação física e comportamental: "Eu tive que encontrar a força na contenção. Ela é tímida, ela é soturna, ela é introspectiva, totalmente ao contrário de mim. Ela tem uma cifose nas costas, então a postura dela é assim, e eu sou assim [ereta]. É completamente diferente. Mas eu descobri uma coisa em comum que a gente tem, que é a força da realização. Isso eu acho que eu tenho em comum com ela. E não largar a mão do meu propósito." A identificação final reside na resiliência: "Ela me ensinou isso, eu já tinha isso muito latente, mas ela me ensinou mais. Agora, a força do fazer, do executar, do colocar de pé as coisas em que eu acredito, eu acho que a gente tem muito parecida".
O passo seguinte da companhia envolve a circulação da megaestrutura do espetáculo por diversas capitais brasileiras. "[Fazer isso] é uma das loucuras mais absurdas que eu já fiz. São 74 pessoas viajando, com mais seis carretas. É um espetáculo muito grande. Só para você ter uma ideia, tem um carro de verdade em cena, que anda, um Cadillac. Então é uma loucura", dimensionou.
A largada da grande jornada itinerante já tem data e locais definidos: "A gente vai fazer uma turnê, eu estou muito feliz com isso. A gente estreia agora, dias 1º e 2º de agosto, no Teatro Municipal do Rio. Aí a gente faz Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Recife, Salvador e São Paulo, também no Teatro Municipal, em dezembro, onde aconteceu a Semana de Arte Moderna. Então a gente está muito feliz de entrar nessa casa".