
A vontade expressa por Preta Gil de ter parte de suas cinzas transformadas em diamantes causou grande comoção popular ao ser resgatada na obra documental "Preta — Eu Não Ando Só", exibida pela TV Globo e disponibilizada no catálogo do Globoplay. Para além do tributo à artista, a revelação despertou a curiosidade sobre as etapas tecnológicas capazes de converter resíduos da cremação em gemas preciosas.
O exemplar fabricado especialmente para a família Gil passou por todo o procedimento em solo nacional. Ao contrário das pedras encomendadas por amigos próximos, o artefato da família teve 100% de seu desenvolvimento feito no Brasil, dispensando a necessidade de envio da matéria-prima para laboratórios estrangeiros.
Na visão de Mylena Cooper, especialista em tanatologia e consultora em processos de luto e celebração da memória, com exclusividade à coluna de Fábia Oliveira, a visibilidade trazida pela artista ajuda a ilustrar a maneira como os recursos tecnológicos modernos vêm enriquecendo as cerimônias de despedida.
De acordo com a especialista, a criação do mineral tem início com a extração do carbono remanescente dos restos cremados. O substrato passa por rigorosas etapas de purificação até que os elementos secundários sejam completamente eliminados.
Em seguida:
Transformação em Grafite: O carbono purificado é convertido em grafite.
Método HPHT: A substância é submetida a ambientes altamente controlados de elevada pressão e temperatura. O procedimento, conhecido internacionalmente pela sigla HPHT (High Pressure High Temperature), reproduz em ambiente fabril os mesmos parâmetros encontrados no interior da Terra para a gestação natural de uma gema.
Formação e Acabamento: O arranjo dos átomos de carbono é reestruturado, gerando a pedra em estado bruto. Por fim, o elemento passa pelas fases de lapidação, polimento e atesto de autenticidade.
O resultado do processo é um diamante sintetizado que carrega rigorosamente as mesmas características físico-químicas de uma joia extraída da natureza. Além da numeração única de autenticação, o mineral pode receber uma marcação microscópica a laser contendo o nome da pessoa homenageada, uma gravação imperceptível a olho nu, visível apenas por lentes de alta ampliação.
Para Mylena Cooper, a posse de uma peça memorialística não elimina a saudade nem encerra o período do luto. A virtude desse símbolo reside em eternizar a trajetória individual através de um artefato tangível, formulado de acordo com a vontade prévia da pessoa ou do desejo de seus entes queridos.
“Humanizar o luto não é negar a dor. É reconhecer que, mesmo diante da morte, ainda existem amor, história e memória”, afirmou à coluna Fábia Oliveira.