
Cheguei ao Nubank Parque, antigo Allianz, no último sábado (25), carregando uma certeza: algumas viagens não nos levam a um lugar, mas a uma época. E “O último voo da nave”, derradeira turnê da eterna Rainha dos Baixinhos, prometia justamente isso. Antes, porém, exigiu paciência.
A logística da estreia em São Paulo tropeçou logo no embarque. As filas se transformaram em um grande labirinto, sem orientação clara, misturando setores e confundindo o público, que não poupou críticas.
A segunda turbulência ocorreu quando as luzes se apagaram e a tão aguardada nave cenográfica cruzou o estádio completamente às escuras. Era impossível não perceber que algo havia dado errado. O efeito, pensado para arrancar suspiros logo nos primeiros minutos, perdeu parte do impacto. Somente depois que Xuxa já estava no palco a estrutura passou a funcionar normalmente.
Marcado para as sete da noite, o atraso de vinte minutos em nada incomodou. Meia hora antes do espetáculo começar, os minutos foram exibidos no telão em uma espécie de contagem regressiva. Antes disso, logo após a abertura dos portões, o DJ Tico Malagueta entreteve a multidão com canções de... adivinha quem? Da artista que logo entraria em cena. Mesmo tocando músicas que não faziam parte do setlist oficial do show, poderia ter mesclado seu repertório com sucessos de outros intérpretes, e não apenas nos momentos finais de sua participação, como de fato aconteceu.
Mais do que um evento de despedida, a turnê de duas horas foi projetada para ser uma imersão cronológica pela carreira de uma mulher que se tornou um grande ídolo e atravessou gerações. "Pinel por você", "Doce mel", "O boto rosa", "Lua de cristal", "Tindolelê", "Hoje é dia de folia" e tantos outros sucessos, regravados especialmente para a ocasião, fizeram o público esquecer a idade e voltar aos anos 1980 e 1990. Fases posteriores, como o projeto "Só para baixinhos", mostraram que a apresentadora nunca deixou de conversar com diferentes gerações.
Grandes hits foram esquecidos e sentidos pelos presentes. “Jogo da rima”, “Sexto sentido”, “Salada mista”, “Pipoca”, “Circo” e “Brincar de índio”, que poderia ter sido incluído durante o bloco que pedia consciência em relação à natureza, fizeram (muita) falta.
Enquanto as músicas embalavam a plateia, os telões faziam um trabalho igualmente importante. Os vídeos exibidos, bem-produzidos, funcionavam como uma grande homenagem à trajetória da comunicadora e ampliavam a emoção de quem cresceu assistindo ao “Xou da Xuxa”, ao “Xuxa Park”, ao “Xuxa Hits” e ao “Planeta Xuxa”.
Durante o tributo às paquitas, foi impossível assistir a tudo sem lembrar da recente polêmica envolvendo Andréa Faria (Sorvetão). Depois das declarações de Xuxa, durante uma entrevista, afirmando que cortou relações com as que considera homofóbicas, a ex-assistente de palco negou a acusação e disse que o afastamento entre ambas tem motivação política. Sem transformar o palco em tribunal, Xuxa comentou que algumas não aceitaram o convite e outras não puderam comparecer. Uma fala breve, porém suficiente para reconhecer as ausências. Por falar nisso, e os paquitos? Não mereciam também uma lembrança? Pelo menos citados deveriam ter sido.
Aliás, se havia alguma dúvida sobre o posicionamento da artista, ela desapareceu durante a performance de "Arco-íris". Ao empunhar a bandeira da comunidade LGBTQIAPN+, Xuxa foi ovacionada ao pedir respeito. Não pareceu um gesto calculado para gerar manchetes, mas uma extensão natural do discurso que ela defende há anos.
Outro momento que chamou a atenção foi quando ela falou sobre as críticas que vem recebendo por causa da idade, principalmente por usar figurinos cavados em suas apresentações. Disse, em outras palavras, que poderiam chamá-la de velha e criticar suas roupas, mas que fazia aquilo pelos fãs. Um claro manifesto contra o etarismo.
Saí do estádio pensando que toda despedida carrega um pouco de melancolia. Após “Ilariê”, cantada por milhares de pessoas, a nave, prestes a decolar, indicava que, antes de se aposentar, ainda pousará por cidades como Curitiba, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, no Maracanã.
Apesar do tumulto, de algumas ausências e de pequenos contratempos, a estreia paulistana da turnê provou que Xuxa conseguiu promover um reencontro coletivo com a infância de mais de 50 mil pessoas. Quando o show chegou ao fim, ficou a sensação de que estar ali significava reconhecer o valor de quem ensinou tanta gente que "sonhos sempre vêm pra quem sonhar".