
O chanceler brasileiro, Mauro Vieira, manteve uma reunião na noite de domingo (26) com o representante diplomático da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi. No encontro, o ministro classificou como intoleráveis e sem comparações os ataques proferidos pelo mandatário Javier Milei, no sábado anterior (25), contra o presidente Lula (PT) e o magistrado do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes durante o ato do PL que chancelou a pré-candidatura de Flavio Bolsonaro ao Planalto.
Interlocutores do Poder Executivo confirmaram à apuração da CNN que a tratativa ocorreu presencialmente nas dependências do Palácio Itamaraty. De acordo com relatos do episódio, o diplomata argentino escutou os apontamentos e indicou que repassaria o posicionamento de Brasília aos seus superiores em Buenos Aires.
O mal-estar se aprofundou devido ao comparecimento no comício do chefe da diplomacia argentina, Pablo Quirno, acompanhado do cônsul-geral em São Paulo, Luís María Kreckler, um servidor de carreira do corpo diplomático que já chefiou a embaixada na capital federal entre 2012 e 2015. A avaliação de bastidor, contudo, aponta que nem o embaixador vizinho tampouco Milei inclinam-se a formalizar retratações. Como desdobramento imediato, o embaixador brasileiro na Argentina, Julio Bitelli, permanece em solo nacional sem data fixada para reassumir o posto.
No território argentino, o atrito se consolidou como a principal manchete política do começo de semana na imprensa local, conforme informações obtidas pela CNN. O impasse vem sendo dimensionado por analistas como o momento de maior fricção nas relações bilaterais entre as duas nações nos últimos 50 anos.
O comportamento de Milei acumula reações adversas em diversos setores, mobilizando desde analistas de política internacional até diplomatas argentinos em exercício ou reformados. O diagnóstico predominante indica que a atitude do chefe da Casa Rosada rompe com os pilares históricos da diplomacia do país frente aos parceiros regionais, servindo como ressonância à postura de Trump quanto ao cenário político brasileiro.
A despeito da gravidade do quadro, o consenso entre os observadores aponta que a turbulência não atingirá um nível de ruptura extrema, como a expulsão ou o recolhimento definitivo dos embaixadores. Fica evidente, contudo, que o desgosto político gera fricção imediata nas trocas comerciais e econômicas mantidas pelos dois mercados.