Que lição “Vale tudo” nos deixa?

Quase quatro décadas depois, trama de maior sucesso da teledramaturgia brasileira ganha uma decepcionante atualização

18/10/2025 às 06h01 Atualizada em 18/10/2025 às 07h03
Por: Flávio Melo
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IMAGEM: Globoplay
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O desafio era imenso: revisitar a maior novela da teledramaturgia brasileira. Mas o remake de "Vale tudo", escrito por Manuela Dias e dirigido por Paulo Silvestrini, terminou como um dos experimentos mais desastrosos da história recente da Globo. A promessa de atualizar a pergunta “Vale a pena ser honesto no Brasil?” se perdeu em um mar de superficialidades e incoerências.

A nova versão começou fiel ao texto original de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, mas rapidamente mergulhou no caos. Personagens perderam sentido, arcos dramáticos se esfarelaram e a crítica social — alma da novela em 1988 — desapareceu. O que antes era uma reflexão sobre moralidade virou um desfile de temas rasos jogados ao vento: assexualidade, vício em jogos, racismo, burnout, etarismo… tudo mencionado, nada desenvolvido.

A autora preferiu o modismo à substância. O resultado foi um roteiro que parecia escrito semana a semana, sem propósito e sem emoção. Até o dilema ético de Ivan (Renato Góes), que sustentava a trama original, virou um aparato morno. E Raquel, interpretada com garra por Taís Araujo, foi boicotada por um texto que a reduziu a figurante de sua própria história.

A direção também naufragou. Cenas decisivas sofreram com a falta de impacto, e o auge do constrangimento veio com o assassinato de Odete Roitman — uma sequência tão absurda que beirou a paródia. E, como se não bastasse, a vilã ainda ressuscitou com uma explicação tão estapafúrdia que virou meme instantâneo.

Mesmo com um elenco talentoso — destaque para Debora Bloch, Malu Galli, Belize Pombal, Karine Teles, Cauã Reymond e Ricardo Teodoro —, a obra foi incapaz de esconder a fragilidade da escrita e pouco valorizou as atuações.

Na média, superou sua antecessora, "Mania de você", mas ficou muito aquém do último remake produzido para o horário, "Pantanal". Comercialmente, lucrou. Artisticamente, fracassou.

No fim, a verdade é uma só: Manuela Dias transformou a trama mais inteligente da TV em um drama genérico. De "Vale tudo", sobrou apenas o título — porque, na prática, foi uma barbárie.

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Flávio Melo
Sobre o blog/coluna
Flávio Melo Jornalista - MTB 87099/SP

Formado pela Cásper Líbero, é crítico especializado em TV, cinema, streaming e música, além de cronista, criador de conteúdo, podcaster e pesquisador de teledramaturgia.
É um dos idealizadores, apresentadores e roteirista do "Pod tudo e + um pouco!", canal de entrevistas no YouTube com mais de 90 mil inscritos.

Sua coluna no Instagram (@colunaflaviomelo), dedicada à análise de produções audiovisuais, reúne mais de 80 mil seguidores.
Já participou, como convidado, do "Link podcast" (Record Digital), comentando reality shows, e do extinto "Tarde top" (Rede Brasil).

Atualmente, é colunista e redator do Portal e Canal Felipeh Campos e comentarista de cultura, entretenimento e celebridades nos programas "Papo em dia" (Rede Brasil) e "Altos papos" (Rádio Capital), apresentado por Nani Venâncio.

"Ao longo da minha trajetória como comunicador, realizei mais de 100 entrevistas com personalidades de diferentes áreas."
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